domingo, 27 de fevereiro de 2011

Augustus Nicodemus - Quando a Cultura Vira Evangelho


O relacionamento dos cristãos com a cultura na qual estão inseridos sempre representou um grande desafio para eles. Opções como amoldar-se, rejeitar a cultura, idolatrá-la ou tentar redimi-la têm encontrado adeptos em todo lugar e época. Em nosso país, com uma cultura tão rica, variada e envolvente, o desafio parece ainda maior nos dias atuais. Como aqueles que crêem em Jesus Cristo e adotam os valores bíblicos quanto à família, trabalho, lazer, conhecimento e as pessoas em geral podem se relacionar com esta cultura?

Existem muitas definições disponíveis e parecidas de cultura. No geral, define-se como o conjunto de valores, crenças e práticas de uma sociedade em particular, que inclui artes, religião, ética, costumes, maneira de ser, divertir-se, organizar-se, etc.

Os cristãos acrescentam um item a mais a qualquer definição de cultura, que é a sua contaminação. Não existe cultura neutra, isenta, pura e inocente. Ela reflete a situação moral e espiritual das pessoas que a compõem, ou seja, uma mistura de coisas boas decorrentes da imagem de Deus no ser humano e da graça comum, e coisas pecaminosas resultantes da depravação e corrupção do coração humano. Toda cultura, portanto, por mais civilizada que seja, traz valores pecaminosos, crenças equivocadas, práticas iníquas que se refletem na arte, música, literatura, cinema, religiões, costumes e tudo mais que a compõe.

Deste ponto de vista a definição de cultura é bem próxima à definição que a Bíblia dá de "mundo," a saber, aquele sistema de valores, crenças, práticas e a maneira de viver das pessoas sem Deus. Poderíamos dizer que “mundo” compreende os traços da cultura humana que refletem a sua decadência moral e espiritual e seu antagonismo contra Deus.

De acordo com João as paixões carnais, a cobiça e a arrogância do homem marcam o mundo. Como tal, o mundo é frontalmente inimigo de Deus e os cristãos não devem amá-lo:

1João 2:15-16 - "Não ameis o mundo nem as coisas que há no mundo. Se alguém amar o mundo, o amor do Pai não está nele. Porque tudo que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não procede do Pai, mas procede do mundo."

Tiago vai na mesma linha:

Tiago 4:4 - "Infiéis, não compreendeis que a amizade do mundo é inimiga de Deus? Aquele, pois, que quiser ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus".

Escrevendo aos romanos, Paulo os orienta a não se moldarem ao presente século - um conceito escatológico do mundo presente, debaixo da lei e do pecado e caminhando para seu fim:

Romanos 12:2 - "E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus".

O próprio Jesus ensinou que o mundo o odeia e odeia aqueles que são seus dicípulos, pois não são do mundo:

João 15:18-19 – “Se o mundo vos odeia, sabei que, primeiro do que a vós outros, me odiou a mim. Se vós fôsseis do mundo, o mundo amaria o que era seu; como, todavia, não sois do mundo,  pelo contrário, dele vos escolhi, por isso, o mundo vos odeia”.

Não é de se estranhar, portanto, que aqueles cristãos que levam a Bíblia a sério sempre tiveram uma atitude, no mínimo, cautelosa em relação à cultura, por perceberem nela traços da corrupção humana - ou seja, do mundo.

Ao mesmo tempo em que a Bíblia define o mundo de maneira negativa, ela admite que existem coisas boas na sociedade em decorrência do homem ainda manter a imagem de Deus – em que pese a Queda – e em decorrência de Deus agir na humanidade em geral de maneira graciosa. Deus concede às pessoas, sendo elas cristãs ou não, capacidade, habilidades, perspicácia, criatividade, talentos naturais para as artes em geral, para a música – enfim, aquilo que chamamos de graça comum. É interessante que os primeiros instrumentos musicais mencionados na Bíblia aparecem no contexto da descendência de Caim (Gênesis 4:21) bem como os primeiros ferreiros (4:22) e fazedores de tendas (4:20). Paulo conhecia e citou vários autores da sua época, que certamente não eram cristãos (Epimênides, Tt 1:12; Menander, 1Cor 15:32; Aratus, Acts 17:28). Jesus participou de festas de casamento (João 2) e Paulo não desencorajou os crentes de Corinto a participar de refeições com seus amigos pagãos, a não ser em alguns casos de consciência (1Co 10:27-28).

Portanto, a grande questão sempre foi aquela do limite – onde eu risco a linha de separação? Até que ponto os cristãos podem desfrutar deste mundo, até onde podem se amoldar à cultura deste mundo e fazer parte dela?

Dá para ver porque ao longo da história a Igreja cristã foi considerada algumas vezes como obscurantista, reacionária, um gueto contra-cultural. Nem sempre os seus inimigos perceberam que os cristãos, boa parte do tempo, estavam reagindo ao mundo, àquilo que existe de pecaminoso na cultura, e não à cultura em si. Quando missionários cristãos lutam contra a prática indígena de matar crianças, eles não estão querendo acabar com a cultura dos índios, mas redimi-la dos traços que o pecado deixou nela. Eles estão lutando contra o mundo. Quando cristãos criticam Darwin, não estão necessariamente deixando de reconhecer sua contribuição para nosso conhecimento dos processos naturais, mas estão se posicionando contra a filosofia naturalista que controlou seu pensamento. Quando torcem o nariz para Jacques Derrida, não estão negando sua correta percepção das ambigüidades na linguagem, mas sua conclusão de que não existe sentido num texto. Gosto de Jorge Amado mas abomino seu gosto pela pornografia,

Por ignorarem ou desprezarem a presença contaminadora do mundo na cultura é que alguns evangélicos identificam a cultura como a expressão mais pura e autêntica da humanidade. Assim, atenuam – e até negam – a diferença entre graça comum e graça salvadora, entre revelação natural e revelação especial. Evangelizar não é mais chamar as pessoas ao arrependimento de seus pecados – refletidos inclusive em suas produções culturais, poéticas, artísticas e musicais – mas em afirmar a cultura dos povos em todos os seus aspectos. O Reino de Deus é identificado com a cultura. Não há espaço para transformação, redenção, mudança e transformação – fazê-lo seria mexer com a identidade cultural dos povos, a sua maneira de ser e existir, algo que com certeza deixaria antropólogos de cabelo em pé.

A contextualização sempre foi um desafio para os missionários e teólogos cristãos. De que maneira apresentar e viver o Evangelho em diferentes culturas? Pessoalmente, acredito que há princípios universais que transcendem as culturas. Eles são verdadeiros em qualquer lugar e em qualquer época. Adultério, por exemplo, é sempre adultério. Pregar o Evangelho numa cultura onde o adultério é visto como normal significa identificá-lo como pecado e lutar contra ele, buscando redimir os adúlteros e adúlteras e restaurar os padrões bíblicos do casamento e da família. Enfim, redimir e transformar a cultura, fazê-la refletir os princípios do Reino de Deus.

Nem sempre isto é fácil e possível de se fazer rapidamente. Missionários às tribos africanas onde a poligamia é vista como normal que o digam. O caminho possível tem sido tolerar a poligamia dos primeiros convertidos, para não causar um problema social grave com a despedida das esposas. Mas a segunda geração já é ensinada o padrão bíblico da monogamia.

É preciso reconhecer que nem sempre os cristãos conseguiram perceber a distinção entre mundo e cultura. Historicamente, grupos cristãos têm sido contra a ciência, a arte, a música e a literatura em geral, sem fazer qualquer distinção. Todavia, estes grupos fundamentalistas não representam a postura cristã para com a cultura e nem refletem o ensino bíblico quanto ao assunto. Os reformados, em particular, caracteristicamente sempre se mostraram sensíveis às artes e viam nelas uma manifestação da graça comum de Deus à humanidade. Apreciavam a pintura, a música, a poesia e a literatura. Entre eles, temos os puritanos. Cabe aqui a descrição que C. S. Lewis fez deles:

Devemos imaginar estes puritanos como o extremo oposto daqueles que se dizem puritanos hoje. Imaginemo-los jovens, intensamente fortes, intelectuais, progressistas, muito atuais. Eles não eram avessos a bebidas com álcool; mesmo à cerveja, mas os bispos eram a sua aversão. Puritanos fumavam (na época não sabiam dos efeitos danosos do fumo), bebiam (com moderação), caçavam, praticavam esportes, usavam roupas coloridas, faziam amor com suas esposas, tudo isto para a glória de Deus, o qual os colocou em posição de liberdade. (...) [Os puritanos eram] jovens, vorazes, intelectuais progressistas, muito elegantes e atualizados ... [e] ... não havia animosidade entre os puritanos e humanistas. Eles eram freqüentemente as mesmas pessoas, e quase sempre o mesmo tipo de pessoa: os jovens no movimento, os impacientes progressistas exigindo uma “limpeza purificadora”.[1]

O grande desafio que Jesus e os apóstolos deixaram para os cristãos foi exatamente este, de estar no mundo, ser enviado ao mundo, mas não ser dele (Jo 17:14-18). Implica em não se conformar com o presente século, mas renovar-se diariamente (Rm 12:1-3), de não ir embora amando o presente século, como Demas (2Tm 4:10). É ser sal e luz.

Para os que deixam de levar em conta a presença da corrupção humana na cultura, os poetas, músicos, artistas e cientistas se tornam em sacerdotes, a produção deles em sacramento e costurar e tecer em evangelização.

NOTA

[1] Citado por Douglas Wilson em “O Puritano Liberado,” Jornal Os Puritanos 5/1 (1997) e por L. Ryken, Santos no Mundo, pp. 19, 177.

Publicado por O Tempora, O Mores

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

A educação do alto

Por Eric Nascimento de Souza
Geralmente em algumas conversas, noto que quando o assunto tende a diferenciação de classe social, a conversa fica desorientada. Parece-me que a maioria das pessoas atribui um enorme valor aos de “classe”, como se os outros menos abastados do dinheiro não o fossem. Isto me parece estar no subconsciente das pessoas, elas dizem: “vamos àquele lugar chique”, “olhe àquela senhora como se veste, ela tem dinheiro”, “as pessoas neste lugar (que é chique) são mais educadas”, etc. Convenhamos, tudo isto é ilusório. São roupas, carros, lugares e pessoas que aparentam certa educação e que para os néscios das coisas de Deus, tudo fica muito lindo e atraente.
Não discordo que devemos almejar os melhores pontos sociais para irmos com a nossa família (mas quem disse que deve ser o mais caro?), que possamos conquistar bens que proporcionem o conforto da nossa família; mas, insistir que há uma atmosfera diferente nas ditas high society, como se estivesse em outro mundo ou até mesmo usufruindo antecipadamente do paraíso, acho uma tolice.
Claramente, notamos que em certos lugares, as condutas ou formas de agir são diferentes. Cito como exemplo uma pessoa que se veste para ir ao maracanã e no outro dia vai a um casamento. Os dois ambientes têm diferenças marcantes de vestuário e comportamento, porém não importa a classe social desta pessoa ou onde ela tenha sido educada, ela agirá conforme a padronização do lugar. O fato de ser pobre ou rico não definirá se a pessoa irá ser um adúltero, bandido, traficante ou coisa pior; o que definirá o estado de excelência desta pessoa é a sua posição em Cristo. Gerações podem ser educadas nos melhores colégios ou vice versa, freqüentarem as melhores classes sociais, usufruírem das benesses deste mundo, mas se não forem cristãos não tem a educação do alto: aquela que é superior a tudo, aquela que é verdadeira como o seu Autor, aquela que transforma um adúltero em marido fiel, um assassino numa pessoa de bem, um bandido num homem íntegro, entre outras.
A nossa posição como cristãos é filtrar estas falsas impressões da sociedade relacionada aos bens e mostrar que a verdadeira educação, o verdadeiro lugar para estar com a nossa família está entre os cristãos, que pela misericórdia de Deus estão sendo santificados, transformados em verdadeiros homens que esmeram por sua conduta (não importando onde estejam) e pautando-se pela ética e moralidade (não importando a classe social de onde venha). Esta não é uma educação secular, vinda das melhores escolas e universidades do planeta. Esta é uma educação vinda da salvação em Cristo, da regeneração do homem pelo poder do Espírito Santo de Deus. Esta educação diferente das outras e infinitamente superior, vem do alto.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Charles Spurgeon - Eleição *

Antes de mais nada, penso que a eleição para um santo é uma das doutrinas mais desnudadoras de todo este mundo, porquanto isenta-o de toda a confiança na carne, de toda a dependência a qualquer coisa, excetuando  Jesus  Cristo.  Quão freentemente  nos  revestimos  de  nossa  própria retidão,  adornando-nos com as pérolas e gemas falsas dos nossos próprios feitos e das nossas obras. E, então, comamos a dizer: Agora serei salvo, porque tenho esta ou aquela evidência da minha salvação! Entretanto, bem ao invés disso, aquilo que  salva a um pecador é a fé pura, despida de qualquer outro fator. Esta fé singular une o indivíduo crente ao Cordeiro,  independentemente de obras, embora a fé venha a produzir obras.

Quão freqüentemente apoíamo-nos em alguma boa obra, ao invés de nos sustentarmos no Amado de nossas almas, ou confiamos em algum poder, ao invés de confiarmos somente naquele poder que vem lá do alto. Ora, se quisermos nos despir de todo e qualquer poder que não seja o celestial, então, forçosamente, teremos de considerar a eleição como um fator imprescindível. Faz uma pausa, á minha alma, e considera esta verdade: Deus te amou antes mesmo de vires à existência. Ele te amou quando ainda estavas morta nos teus delitos e pecados; e Ele enviou Seu Filho para morrer em teu lugar. Ele te resgatou com o Seu precioso sangue, antes que pudesses sussurrar o Seu nome.

Amigos, se vocês desejam adquirir uma mais profunda humildade, então estudem a doutrina bíblica da eleição, pois ela  humilhará a vos, sob as influências do Espírito Santo. Aquele que se sente orgulhoso de sua eleição, é porque não é um dos eleitos do Senhor. Mas aquele que se sente apequenado, debaixo do senso de haver sido escolhido, pode acreditar que é um dos eleitos. Tal individuo tem toda a rao para acreditar que é um dos escolhidos de Deus, porquanto esse é um dos mais benditos efeitos da eleição, ou seja, ela ajuda-nos a nos humilharmos na presença de Deus.

* Trechos do livro “Eleição” de Charles Spurgeon.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Martinho Lutero - A Lei conduz os homens a Cristo

A lei tem o propósito de conduzir os homens a Cristo, dando-lhes o conhecimento do pecado.*
O argumento a favor do "livre-arbítrio" é que a lei não nos teria sido dada se não fôssemos capazes de obedecê-la. Erasmo, por repetidas vezes você tem dito: "Se nada podemos fazer, qual é o propósito das leis, dos preceitos, das ameaças e das promessas?" A resposta é que a lei não foi dada para mostrar-nos o que podemos fazer. Nem mesmo a fim de ajudar-nos a fazer o que é correto. Diz Paulo, em Romanos 3.20: "...pela lei vem o pleno conhecimento do pecado". O propósito da lei foi o de mostrar-nos no que consiste o pecado e ao que ele nos conduz à morte, ao inferno e à ira de Deus. A lei pode destacar essas coisas. Não pode livrar-nos delas. O livramento nos chega exclusivamente através de Cristo Jesus, que nos é revelado através do evangelho. Nem a razão nem o "livre-arbítrio" podem conduzir os homens a Cristo, visto que a razão e o "livre--arbítrio" precisam da luz da lei para mostrar-lhes sua enfermidade. Paulo faz esta indagação em Galatas 3.19: "Qual, pois, a razão de ser da lei?" Entretanto, a resposta de Paulo à sua própria pergunta é o contrário da resposta que você e Jerônimo dão. Você diz que a lei foi dada a fim de provar a existência do "livre-arbítrio". Jerônimo diz que ela tem o propósito de restringir o pecado. Mas Paulo não diz nada disso. Seu argumento todo é que os homens precisam de graça especial para combaterem contra o mal que a lei desvenda. Não pode haver cura enquanto a enfermidade não for diagnosticada. A lei é necessária para fazer os homens perceberem a perigosa condição em que estão, a fim de que anelem pelo remédio que se encontra somente na pessoa de Cristo. Portanto, as palavras de  Paulo, em Romanos 3.20, podem parecer muito simples, mas elas têm poder suficiente para fazer com que o  "livre-arbítrio" seja total e completamente inexistente. Diz Paulo em Romanos 7.7: ''.. .pois não teria eu conhecido a cobiça, se a lei não dissera: Não cobiçarás". Isso significa que o "livre-arbítrio" nem mesmo reconhece o que o pecado é! Como, pois, poderia chegar a conhecer o que é certo? E, se não sabe reconhecer o que é certo, como poderia esforçar-se por fazer o que é certo?

* Trecho do excelente livro "Nascido Escravo" publicado pela Editora Fiel

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Arthur W. Pink - A Soberania de Deus e a oração

“...A tendência quase universal hoje em dia é a de magnificar o homem e desonrar e degradar a Deus. A todo instante verifica-se que, quando os assuntos espirituais estão sendo debatidos, os homens insistem sobre o lado e o elemento  humanos; e o lado divino, quando não é totalmente ignorado, é relegado a segundo plano...”
“...ao invés de considerarmos a oração como um mero instrumento pelo qual obtemos o suprimento de nossas necessidades. A oração foi planejada por Deus para nos humilhar. A oração autêntica consiste em chegarmos à presença  de Deus, tendo consciência de sua sublime majestade, o que produz em nós o reconhecimento de nossa insignificância e indignidade...”
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