terça-feira, 28 de junho de 2011

Vincent Cheung - Sem "fé" suficiente para ser ateu?

Ao defender a fé cristã, crentes eventualmente afirmam algo como "não tenho fé suficiente para ser ateu". Aqui se incluem alguns proponentes da apologética pressuposicional, que usariam mal o termo dizendo que toda cosmo-visão deve começar assumindo seus princípios primeiros pela-"fé". Mas isso é biblicamente falso e estrategicamente tolo.

Quando não cristãos lançam a acusação de que afirmamos o cristianismo somente pela "fé", não estão usando a definição bíblica da palavra, mas referindo-se a algo como "crença por mera suposição, sem qualquer justificativa racional". Alguns cristãos apresentam então um argumento racional em favor do cristianismo e concluem: "É necessário mais fé para ser ateu, e não tenho fé suficiente para ser ateu".

Quando usada desta forma, fé significa mera credulidade, e isso implica que o cristianismo é afirmado por credulidade; assim, a única diferença é que se requer maior credulidade para ser ateu. Esse uso antibíblico da palavra encoraja a audiência a ter uma pequena credulidade para tornar-se cristã, mas não muita, para que não se torne ateísta. Mas se "fé" significa isso; por que não renunciar a toda credulidade e não ter fé nenhuma?

O problema se torna pior quando cristãos afirmam no mesmo contexto que fé não é mera credulidade, mas é racional. Porém, se trouxermos isso de volta à declaração anterior "não tenho fé suficiente para ser ateu", esta se torna um reconhecimento de que o ateísmo é mais racional, que é precisamente o que esses cristãos negaram quando primeiro disseram “não tenho fé suficiente para ser ateu”.

Na Escritura, fé representa sempre algo bom, e é sempre bom ter mais desta fé. Mas subitamente, no próprio contexto da defesa da “fé”, cristãos afirmam que o ateísmo também deve começar pela “fé” e que os ateus de fato a têm em maior medida, porquanto é necessário mais “fé” para ser ateu. Então na mesma discussão, dizem também que a “fé” é racional, e que os ateus na verdade não a têm, pois é um dom de Deus. Ou estão dizendo que um pouco deste dom divino nos faz cristãos, e muito nos faz ateus?

Se usamos a definição bíblica –se nos referimos ao tipo de fé que temos e que desejamos que nossos ouvintes tenham -, a verdade é que se eu tiver alguma fé, mesmo tão pequena quanto um grão de mostarda, não serei ateu. O ateu não tem fé nem mais fé. Se usamos a definição bíblica da palavra e se você tiver alguma fé, já é cristão.

Assim, esse uso impróprio da palavra “fé” pode parecer esperto a alguns, mas é na verdade antibíblico, tolo, confuso e autorrefutável. Jamais deveríamos usar a palavra para denotar credulidade. Ao invés de dizermos “não tenho fé o suficiente de uma coisa boa para ser ateu”, deveríamos dizer “não tenho o suficiente de uma coisa ruim para ser ateu”. Assim, é bem mais adequado dizer “não sou estúpido o suficiente para ser ateu”.

Sucede que jamais deveríamos dizer “Precisamos todos começar pela fé”. Não, não precisamos. Começamos todos a partir de um princípio primeiro que é o ponto de partida lógico de nosso pensamento. Cristãos afirmam pela fé-razão (um dom divino de assentimento inteligente à verdade) a Escritura como seu ponto de partida, mas não cristãos afirmam, por sua credulidade e perversidade, seus princípios primeiros falsos e irracionais mais variados.
Extraído do excelente livro "Cativo à razão" - Editora Monergismo.