quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Martinho Lutero - A quinta petição



"PERDOA-NOS AS NOSSAS DÍVIDAS, ASSIM COMO NÓS PERDOAMOS AOS NOSSOS DEVEDORES"

Diga: Ah, querido Senhor Deus e Pai, não nos leves ao juízo, porque perante ti nenhuma pessoa viva é justa (Salmo 143.2). Ah, não nos imputes como pecado o fato de sermos infelizmente tão ingratos por toda a tua indizível bênção, espiritual e corporal, e de tropeçarmos e pecarmos muitas vezes todos os dias, mais do que sabemos ou podemos perceber (Salmo 19.12). Não leves em consideração quão piedosos ou maus somos, mas sim a tua misericórdia insondável, a nós concedida em Cristo, teu Filho amado. Perdoa também a todos os nossos inimigos, a todos que nos fazem sofrer ou nos fazem injustiça, assim como também nós lhes perdoamos de coração. Pois eles fazem o maior mal a si mesmos ao provocarem a tua ira através de seu comportamento em relação a nós; e a nós de nada adianta a sua perdição, mas sim em muito preferiríamos que tivessem a bem-aventurança conosco, amém. (E quem neste ponto sente que não pode perdoar facilmente, queira pedir a graça de poder perdoar. Mas isto faz parte da pregação.)

Extraído do livro "Como orar" de Martinho Lutero.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Trevin Wax - "Meu propósito não é te converter"

Não há muito tempo, eu assisti um documentário na TV sobre o crescimento do número de muçulmanos em pequenas cidades americanas. Em um momento no filme, um pastor protestante visitou o imame¹ local em sua casa. No início da conversa, o pastor deixou suas intenções claras:
“Meu propósito em te encontrar não é nenhum tipo de conversão. Eu respeito você e suas crenças. Você não vai mudar, eu não vou mudar.”
Há tantas coisas para desembulhar nessas três sentenças que eu mal sei por onde começar. Curiosamente, o imame reafirmou a última dessas três sentenças, oferecendo seu total consentimento para enquadrar a discussão dessa maneira.

“Eu respeito você e suas crenças”

 

Vamos começar com a segunda sentença primeiro: “Eu respeito você e suas crenças”.
O pastor está certo em respeitar o imame, se for por nada mais do que o fato de o imame ser um companheiro humano criado à imagem de Deus. É a imagem de Deus na humanidade que nos separa do mundo dos animais e nos dá um valor intrínseco e uma vocação única.
Ao falarmos “respeitar crenças”, deveríamos ser mais cuidadosos. Na maioria das vezes, quando um pastor ou líder na igreja fala sobre “respeitar as crenças de alguém”, eles querem dizer “respeitar a sinceridade com a qual uma pessoa se prende a uma crença”. Nesse sentido, tudo bem falar em “respeitar as crenças de alguém”.  Porém, no sentido mais literal, “respeitar as crenças de alguém” pode ser tolice.
Se meu filho de 7 anos estivesse assistindo Peter Pan e depois decidisse pular da janela de casa e sair voando pela vizinhança, seria ridículo eu dizer, “eu acredito na sua crença”. Eu poderia respeitar a tenacidade de sua fé infantil, mas seria o primeiro a dizer, “Isso é estupidez”. Posso respeitar meu filho como um ser humano feito à imagem de Deus; de fato, eu posso amá-lo como um pai deveria amar o filho, e ainda assim apontar a falha em sua crença.
Da mesma forma, cristãos precisam distinguir (corretamente) entre demonstrar respeito pelas pessoas e (erroneamente) advogar respeito por toda e qualquer ideia que alguém acredita. Eu posso respeitar um amigo muçulmano sem respeitar totalmente a visão do muçulmano sobre o pós-vida, ou a explicação muçulmana sobre a cruz de Cristo, ou a ideia muçulmana de obras de justiça. Tais crenças não são dignas de respeito por estarem erradas, mesmo se as pessoas que acreditam nelas sejam valiosas, indivíduos preciosos feitos à imagem de Deus.

“Meu propósito em te encontrar não é nenhum tipo de conversão”

 

Mais problemática do que confundir o respeito pelas pessoas com o respeito pelas crenças delas, é a primeira declaração feita pelo pastor: “Meu propósito em te encontrar não é nenhum tipo de conversão”.
Como um cristão comprometido com o ensino dos ensinamentos de Jesus, não consigo entender como essa afirmação possa ser outra coisa senão uma abdicação da responsabilidade que Jesus deu aos Seus discípulos após Sua ressurreição: “Vá e faça discípulos de todas as nações”. Observe a ausência de qualquer qualificação. Jesus não disse: “Vá e faça discípulos entre os nominalmente religiosos de sua área”. Ou “Vá e faça discípulos daqueles que não acreditam em Deus totalmente”. Ou “Permaneça dentro das paredes da sua igreja e faça discípulos lá”. Não… a ordem de Jesus é clara. Ele é o Rei que possui toda a autoridade nos céus e na terra. Quando colocamos a Grande Comissão, juntamente com as reivindicações rígidas de Cristo por exclusividade, em seu devido lugar, vemos o quão equivocado é dizer que não temos nenhum objetivo de converter um descrente.
Com certeza, esse pastor será louvado por muitos na sociedade atual. Ele parece tão mente aberta e tolerante. “Meu propósito não é te converter”, ele diz, extraindo um “Ufa!” dos produtores do filme na medida em que a tensão na sala vai desaparecendo.
Mas, quando a afirmação do pastor é colocada dentro do contexto completo das Escrituras e o que o próprio Jesus diz sobre salvação, é o mesmo que dizer, “Eu não quero que você esteja comigo nos novos céus e nova terra”. É uma condenação implícita para a eterna perdição. Aqui estão todos os tipos de implicações em dizer algo assim:
○     Meu propósito não é apresentar-lhe Jesus. (Você está se saindo muito bem sem Ele, afinal.)
○     Meu propósito não é te mostrar como escapar do eterno julgamento. (Eu não estou levando Jesus a sério quando Ele fala sobre o fogo do inferno e todas essas coisas.)
○     Meu propósito não é adorar lado a lado com você, cantando louvores ao Cordeiro cujo sangue foi derramado por você. (Você continua na sua mesquita, e nós ficaremos em nossa igreja, muito obrigado.)

“Você não vai mudar”

 

Então, aqui está a afirmação mais problemática de todas. O imame e o pastor declararam rapidamente, “Você não vai mudar, eu não vou mudar”.
Agora, não há nenhuma surpresa quanto ao imame dizer tal coisa. Porém, para um ministro do evangelho – as mais explosivas e transformantes notícias jamais reveladas em nosso mundo – dizer “Você não vai mudar” é uma explícita negação ao poder do evangelho para transformar o coração humano. Não há fé em que Deus pode operar milagres. Não há fé em que Deus pode trabalhar tanto em um coração que suas afeições e crenças podem mudar dramaticamente.
E se o pastor aplicasse sua lógica a um alcoólico que fosse a ele para um aconselhamento?  “Bem, Joe, você não vai mudar”. Ou a um homem que estivesse à beira de acabar com seu casamento devido à pornografia, “Desculpe, Sam. Você não vai mudar”.

A mensagem verdadeiramente inclusiva do evangelho

 

O evangelho é para todos. Ele é uma mensagem radicalmente inclusiva. Embora o mundo relute contra as exclusivas reivindicações de Cristo, nós investimos nas notícias inclusivas de que Ele é o Salvador de todo o mundo. Se eu falho em proclamar Sua mensagem, não estou seguindo a Jesus realmente. Ao invés disso, estou apenas disfarçando as ideias do séc. XXI com o traje cristão tradicional.
Qual teria sido o melhor caminho para o pastor guiar sua conversa com o imame? Seria melhor ele ter falado algo como:
Eu te respeito como uma pessoa feita à imagem de Deus. Eu respeito seu direito em acreditar em qualquer coisa que escolher. Eu nunca irei coagir você ou forçar as crenças da minha religião a você, isso seria desvirtuar a verdade de que você, assim como eu, é feito à imagem de Deus. E ainda, como um seguidor de Jesus Cristo, sou ordenado a compartilhar o evangelho. Quando procuro persuadi-lo a seguir Jesus, não é devido a um coração de opressão ou desejo pelo controle, mas por amor e preocupação. Uma vez que eu verdadeiramente acredito que o evangelho oferece esperança à toda humanidade, eu não posso mantê-lo somente comigo. O evangelho é muito precioso e você é muito valioso para mim para eu manter silêncio.
Já que verdadeiramente creio que o evangelho oferece esperança à toda humanidade, não posso mantê-lo somente comigo.
¹Imame é o chefe espiritual na religião muçulmana, é o sacerdote que é encarregado por dirigir as atividades superiores na Mesquita. [N.T.]
Traduzido por Fe Vilela | iPródigo | original aqui

Fonte: iPródigo

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Rev. D.J. MacDonald - Os Puritanos e a dificuldade do ministério

“O trabalho do pregador”, diz Perkins, “é permanecer na presença de Deus, adentrar no santo dos santos, ir entre Deus e o Seu povo, ser a boca de Deus para o povo, e a do povo para Deus; ser o intérprete da eterna lei do Antigo Testamento e do sempiterno evangelho do Novo Testamento; permanecer no espaço do Próprio Deus; cuidar e encarregar-se das almas; estas considerações são maravilhas para a consciência de homens que aproximam-se com reverência, e não com descuidada pressa, ante o trono santo”. [1]

“Não é difícil ensinar?” pergunta John Collings, em sua “A Vindication of the Great Ordinance of God, a Gospel Ministry” (1651). “Meus amados amigos, estamos consigo em muito temor e tremor; e quando consultamos os originais, pesamos a coerência de um texto, comparando nossos pensamentos com os pensamentos de muitos outros divines (teólogos) e principalmente comparando Escritura com Escritura, ainda assim estamos nós em tremor e vemos razão para clamar ao Senhor como Agostinho (antes da nossa interpretação da Escritura): Concede, Senhor, que nós não nos enganemos na compreensão da Tua vontade e que não enganemos a outros, com uma falsa interpretação”.

Sempre que olhamos ou mergulhamos nos escritos dos Puritanos, ficamos com a impressão de que eles tinham uma visão séria e elevada do ministério. “Era”, diz Iain Murray, “uma vida que os enchia de emoção, de reverência. Eles eram da mesma têmpera de Lutero, que disse que se tivesse de atender novamente à sua vocação ele cavaria ou tomaria sobre si qualquer outra coisa contanto que não fosse o ofício de ministro”. Calvino, mesmo após haver escrito sua obra mestra, “As Institutas”, julgava-se insuficiente para aceitar o peso da função ministerial. Knox... foi tão profundamente afetado pela responsabilidade do ofício que foi com grande dificuldade induzido a iniciar o seu ministério de pregação. Knox tremeu ao tomar sobre si o ofício do ministério, não somente devido ao seu senso de incapacidade, mas por saber que as responsabilidades do ofício, uma vez aceitas devem, a qualquer custo, serem levadas a cabo.

“Foi escrito sobre James Durham que, ao aproximar-se do fim da vida, ele disse que se pudesse viver outros dez anos, ele escolheria estudar durante nove anos como preparação para poder pregar no décimo. Perkins estava tão impressionado pela carga sob a qual se encontrava, que ele escreveu na página-título de um dos seus livros, ‘Tu és um ministro da Palavra. Cuida dos teus negócios’. Thomas Shepherd, falando a alguns jovens ministros que o visitaram em seu leito de morte, disse, ‘Sua tarefa é grandiosa e exige grande seriedade. Da minha parte, eu nunca preguei um sermão o qual, durante a preparação não me custasse orações com lágrimas e choro forte. Eu nunca subi num púlpito como se não fosse prestar contas de mim mesmo a Deus’”. [2]

__________
[1] Works, vol 3, p 432.
[2] Do texto de título "The Puritan View of the Ministry and its Relation to Church Government" (“A Visão puritana do ministério e a sua relação com o governo eclesiástico”), veiculado posteriormente na "The Banner of Truth Magazine", agosto de 1957.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Jorge Fernandes Isah - Dupla Predestinação, o Barro "decaído" e a Arbitrariedade de Deus


A partir do livro Eleitos de Deus, de R. C. Sproul, farei algumas considerações sobre a sua abordagem relacionada à dupla predestinação, o barro "decaído" e a arbitrariedade de Deus. Boa parte desses argumentos podem ser lidos nos meus comentários ao livro, disponíveis aqui

Ressalto ainda que o meu intento não é o de polemizar pelo simples gosto da polêmica, mas revelar os meus pensamentos e fazer com que tanto eu como o leitor pensemos a partir do próprio texto bíblico. Não estou a sugerir nenhuma "saida" das Escrituras, nem uma tentativa estúpida de explicar algo inexplicável. Ao meu ver, o que tem feito os crentes permanecerem vulneráveis ao mundo e a si mesmos [em suas pressuposições] é exatamente o medo de ver na Bíblia aquilo que ali está revelado. Sem fazer-me dono da verdade ou especulador, nem exaustivo no que me proponho: uma reflexão a partir de considerações escriturísticas; o que pode levar muitos ao estudo sério de algumas questões que nem mesmo cogitamos pensar. O que acabará por nos tornar em replicantes de um esquema intruso à Bíblia, reverberando o deleite que o homem tem de ouvir sua própria voz. Então, sem mais delongas, mãos-à-obra!

Na questão da dupla predestinação, ainda que Sproul tente amenizar a eleição dos réprobos, ao dizer simplesmente que Deus escolheu os eleitos e deixou de lado ou à própria sorte os réprobos, não neutraliza a idéia do favor divino, da sua escolha dos eleitos para a salvação; e o desfavor, mas ainda assim uma escolha, dos ímpios para a perdição.

Da mesma forma, dizer que Deus não endurece efetivamente o coração ímpio, mas retira a restrição do pecado sobre eles, deixando-os livres para pecar, é muito simplória e faz o malabarista derrubar todos os pratos no chão e estatelar-se sobre eles, além de não haver respaldo bíblico para essa conjectura.

Usar termos como "endurecimento passivo", "entregá-los ao pecado", "decreto positivo e negativo", "destinação não simultânea", etc, são eufemismos, com o objetivo de suavizar aquilo que Deus empregou objetivamente como sua revelação. Ainda assim, por mais que se tente enfraquecê-los, eles não excluem de Deus o desejo de que seus corações sejam endurecidos, os pecadores se voltem mais e mais ao pecado, e de que destinando alguns para a salvação, estará destinando os demais para a condenação. É fato que Deus não os quis salvar; é fato que ele quis condená-los. Então, por que a necessidade de se tentar "aliviar" Deus quando Ele claramente diz o que fez e por quê fez? Não seria uma forma de subestimá-lo, e de até mesmo considerá-lo imperfeito, um "pobre-coitado" que necessita de nossos artifícios toscos e e imprecisos para defendê-lo do que não quer e nem precisa se defender? Necessitando que o adequemos aos nossos defeitos para assegurar-lhe a perfeição? Isso cheira mal, algo muito próximo da rebeldia ou, na melhor das hipóteses, ignorância disfarçada de piedade. Em muitos casos é não querer aceitá-lo como é; em outros é a incapacidade de vê-lo como se revelou-se a nós.

Sproul chegou ao ponto de utilizar a passagem de Ex 7.2-5 [quando Deus afirmou a Moíses que endureceria o coração do Faraó] como um exemplo de endurecimento passivo, onde Deus não interviu diretamente no coração do Faraó, mas ao remover a sua restrição sobre ele, deixou que "as inclinações malignas de Faraó fizessem o restante"[1]. Ao que pergunto: se isso não é o mais escancarado malabarismo argumentativo a fim de tirar de Deus o poder de mover a vontade do Faraó a fim de que se cumprissem exatamente os seus desígnios eternos, o que mais pode ser? De certa forma, não passa de uma tentativa ilusória para transformar o irreal em verdade através de hábeis jogos semânticos.

Passiva ou ativamente, o Faraó não cumpriu o decreto divino? Tal qual ele foi estabelecido na eternidade? E, ainda que passivamente [especulativo], estaria-se a dizer que Deus obteve o resultado desejado sem querer produzi-lo? E se Ele não quis produzi-lo, quem o produziu? Nós? Há uma nítida inversão de papeis e de valores; sempre como uma justificativa para eximi-lo de uma suposta culpa, o que redundará em uma tentativa, mesmo inconsciente, de desprezá-lo e a sua santidade, sabedoria e perfeição. Antes, deveríamos agir como Jó, que mesmo reconhecendo que Deus pode tomar aquilo que deu, não pecou, nem atribuiu a Deus falta alguma, mas bendizeu o nome do Senhor [Jó 1.21-22]. É a pergunta-resposta que ele profere à sua esposa, que o incitava a blasfemar contra Deus: "Como fala qualquer doida, falas tu; receberemos o bem de Deus, e não receberíamos o mal?" [Jó 2.10]. Esta deve ser a atitude de um servo diante do seu Senhor, ao invés de se buscar formas sofisticadas de murmuração e distorção da verdade.

Da mesma forma, ao referir-se a Rm 9, Sproul diz: "Soa como se Deus estivesse ativamenbte fazendo pessoas ser pecadoras. Mas isso não é requerido pelo texto... veremos que o barro com o qual o oleiro trabalha é barro 'decaído'. Um pouco de barro recebe misericórdia para tornar-se vaso de honra. Essa misericórdia pressupõe um vaso que já está culpado. Da mesma maneira, Deus precisa 'tolerar' os vasos de ira, próprios para a destruição, pois eles são vasos de ira, culpados"[2].

Não sei quanto a você, mas me parece outro contorcionismo desnecessário para não concluir o que o texto bíblico evidentemente afirma: Deus é quem faz os vasos de honra e os vasos de ira, lançando "as riquezas da sua glória nos vasos de misericórdia, que para glória já dantes preparou" [v.23]; assim como a "sua ira, e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita paciência os vasos da ira, preparados para a perdição"[v.22].

Quem preparou? Quem destinou? Quem é o oleiro? Ou seja, quem fez os vasos destinando-os a ser o que são? Se não foi Deus, quem foi? Outro deus? Satanás? O homem? Mas se mesmo o mal, e apenas o mal e o pecado, não foi criado e ordenado à existência pelo Senhor, Ele não é soberano, e estamos de alguma forma enganados ou sendo enganados. Se como a Bíblia assegura que não há outro deus além do Senhor, e de que Ele é o criador de todas as coisas, por que ainda resistimos? Por que não nos sujeitamos às evidências internas das Escrituras? Certamente porque os nossos conceitos e argumentos não se encontram em unidade e harmonia com essas manifestações certeiras; os quais penetram sorrateiramente pela porta dos fundos, como se fizessem parte da revelação proposicional quando não passam de parasitas a provocar a verdade, no exercício de induzir o crente a uma aventura desastrosa, a culminar numa imagem distorcida de Deus.

O barro não existia previamente antes de Deus fazê-lo existir. O barro "decaído" não decaiu alheio à vontade de Deus, à sua revelia, por vontade própria. O barro "decaído" não foi autocriado, ou criado por outra "força". O barro "decaído" surgiu pelo poder e vontade de Deus, e apenas por Ele poderia existir. O mesmo poder que destinou alguns para a glória e outros para a perdição. Ou seria possível ao homem escolher a forma como Deus o faria? E de como sería? Por exemplo, a cor dos olhos, cabelos ou pele? E o que dizer de coisas como o estado pecaminoso e o redentivo? Afinal, qual poder temos sobre nós mesmos? E a história? E a eternidade?

Fico com a impressão de que o autor quer ao mesmo tempo dizer e não dizer o que diz. E suas atenuações acabam por enfraquecer e confundir o conceito de soberania, predestinação e eleição divinas.

Isso é manipulação teológica, com todo o respeito e admiração que o Dr. Sproul merece. Bastaria ater-se ao texto bíblico, que é claro e límpido como água [especialmente os dois textos citados], sem a preocupação de imputar a Deus qualquer injustiça, pois, o menor pensamento de que isso seja possível somente poderá vir de uma mente doentia e caída; de uma mente não regenerada e carente da misericórdia divina. Nesses casos, vale a mesma resposta dada por Paulo: "Mas, ó homem, quem és tu, que a Deus replicas? Porventura a coisa formada dirá ao que a formou: Por que me fizeste assim?"[Rm 9.20].

Outra questão é a definição de arbitrário. Ele afirmou que Deus não é arbitrário, porque "por si só, ser arbritário é fazer alguma coisa por nenhuma razão"[3]. Bem, acho que esse conceito do autor, demonstra o seu nível de excentricidade, ou seria arbitrariedade?

A palavra arbitrário designa alguém que decide como árbitro, que não é regulado por leis, mas só depende da sua vontade. Nesse sentido, Deus é completamente arbitrário. Há algo igual ou superior a Ele, ao qual esteja condicionado? Deus faz exatamente tudo aquilo que quer, como quer e da maneira que quer, segundo a sua perfeição, santidade e justiça. E quem somos nós para questioná-lo? Ou para moldá-lo a um padrão humano?

Não nascemos por nossa vontade, nem escolhemos o país, os pais, sexo ou nível de inteligência que gostaríamos de ter. Nascemos pecadores sem desejar sê-lo; somos eleitos sem querer sê-lo; e muitos irão para o inferno sem querer ir. Essas coisas todas aconteceram  e acontecerão à nossa revelia, pela arbitrária vontade divina. Então, considero Deus arbitrário  no sentido de que tudo no universo acontecerá segundo o seu arbítrio, sem nenhuma consulta prévia, sem nem mesmo Ele se preocupar se suas decisões agradarão ou não à sua criação. E, por que? Porque ele é santo, justo, perfeito, sábio, Todo-Poderoso. E porque somos pecadores, injustos, imperfeitos e tolos, criaturas metidas a besta, julgando ter algum poder quando não temos nada, e o pouco que temos [o que é muito para a nossa condição] provém dele, e é por ele, para a sua glória.

Descrever a vontade divina como não-imperativa, não-absoluta, em que o governo de Deus não depende exclusivamente de si, nem é independente do universo governado, é professar a maior heresia que o homem é capaz de produzir. Numa tentativa tola de diminuí-lo aos nossos olhos. Portanto, concluo que Deus é arbitrário, e não há como não ser. Em qualquer situação que se vá explicar a soberania divina, não há como não ligá-la à arbitrariedade.  Senão não estaríamos falando de Deus, mas de deus, algo diminutivo, depreciativo, frágil como nós.

Nos aspectos citados, a despeito de muita coisa valorosa e pautada biblicamente que o Dr. Sproul diz e escreve, não posso concordar com suas afirmações. Elas me parecem como o marido desesperado que, ao encontrar a esposa em adultério no sofá da casa, joga fora o sofá.

Notas: 1 - Eleitos de Deus - R. C. Sproul - Editora Cultura Cristã - página 109;
2 - Idem - página 114;
3 -  Ibidem - página 116;

Fonte: Kálamos

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Josaías - 7 razões para não chamar músicos de "levitas"

Sei que esse assunto já foi batido e rebatido várias vezes, por isso é possível que esse texto não apresente nenhuma novidade para alguns irmãos. Entretanto, gostaria de compilar aqui algumas das melhores razões para não usarmos a expressão levita para designar as pessoas que tocam e cantam no “período de louvor”. E mesmo que você não use o termo, proponho que leia pelo prazer de ver a história da salvação se desenrolando na figura do sacerdote.

Com isso, desejo não apenas levar irmãos a repensarem esse costume, mas também mostrar que a teologia por trás do sacerdócio levítico é muito mais bela, ampla e grandiosa do que parece. Quero deixar claro (antes que alguém objete) que uma igreja pode usar essa expressão e ainda realizar cultos de adoração verdadeira, e que ninguém será condenado pelo uso do termo. Entretanto, não há nenhuma boa razão para cometer esse erro deliberadamente. E, creio, qualquer desvio do ensino bíblico, mesmo os que parecem mais simples, podem ser portas para distorções perigosas. Por isso, sugiro que líderes e pastores levem em consideração o que está exposto aqui.

1) Nem todos os levitas eram músicos
A Bíblia relata, é verdade, que existiam levitas envolvidos com a música no antigo Israel. Vemos corais e bandas formados por membros da tribo de Levi e voltados exclusivamente para esse ministério. Entretanto, também lemos sobre levitas que cuidavam de outras atividades cultuais, como o sacrifício, e aqueles que se envolviam em tarefas administrativas e operacionais.

Sei que alguns defensores da expressão “levita” sabem disso. (Por exemplo, o polêmico concurso “Promessas” admite isso em seu site oficial). Ainda assim, preferiu-se ignorar todas as outras funções associadas ao ministério levítico e concentrar-se apenas nessa. Por quê?

Alguns entendem que é por estrelismo dos músicos, mas prefiro pensar que há um motivo mais profundo – a valorização medieval de funções “sagradas” em detrimento de funções “seculares”. Varrer o chão, organizar culto, carregar coisas – qualquer um faz. Adorar, somente os crentes. Há um fundo de verdade aí, mas também há uma ignorância quanto ao chamado geral de Deus para humanidade. Tanto o administrador quanto o zelador podem glorificar a Deus em suas respectivas funções. Isso não é um culto público, mas é um culto.

Assim, alguém responsável por assuntos cotidianos como arrumar cortinas do templo poderia “ser tão adorador” quanto Asafe, o compositor. E um músico no culto público pode estar profanando o nome de Deus – se seu alvo não for a glória do Criador.

2) O chamado levítico originalmente envolvia toda a humanidade
Um dos assuntos mais interessantes da Bíblia é a teologia do local de adoração. Quando Adão e Eva foram criados, eles receberam um chamado de glorificar a Deus por meio do casamento e da procriação, do domínio sobre a natureza e do descanso no sétimo dia. E eles foram colocados em um Jardim, onde poderiam adorar o Criador e exercer a função de guardar e cuidar do Éden.

Algo que passa despercebido pela maioria dos cristãos é que Moisés e outros autores bíblicos repetiram certas expressões e símbolos sobre o Jardim do Éden quando falavam sobre o tabernáculo e o templo. Ou seja, o Éden era um “templo” que deveria ser guardado pelos primeiros levitas – Adão e Eva. O termo “lavrar e guardar” (Gn 2.15) é a mesmo usado para as funções dos levitas em Números 3.7-8, 8.26 e 18.5-6. O chamado de adoração e cuidado com o “templo” é um chamado geral, dado a nossos primeiros pais, assim como o casamento, a família, o trabalho e o descanso.

“Se o Éden é visto como um santuário ideal, então talvez Adão deva ser descrito como um Levita arquetípico” (Gordon J. Wenham)1

3) O levita tinha um papel de mediador, assumido por Cristo

Como ungidos do Senhor, os levitas tinham um papel de mediar a Aliança entre Yahweh e o povo de Israel. Eles não eram simplesmente pessoas que “ministravam a adoração” para a congregação. Muitos veem o povo realizando sacrifícios e entendem que aquilo era o paralelo de nossos momentos de louvor hoje. Há certa relação, mas os sacerdotes faziam muito mais.

Como mediadores, eles exerciam o papel de representar Deus para o povo e representar o povo para Deus. É por isso que esse era um cargo de extrema importância e perigo. Se o levita chegasse contaminado na presença de Deus, ele estava dizendo que a nação estava em pecado. Se ele chegasse maculado na presença de Israel, era uma blasfêmia – “Deus” estava corrompido. Eles não estavam simplesmente realizando cultos, eles tornavam o culto possível.

Hoje, esse papel é cumprido perfeitamente por nosso sacerdote e cordeiro Jesus. Como perfeito Deus e perfeito homem, ele pode posicionar-se como representante de Yahweh diante do povo e representante da igreja diante de Deus. Como afirma o Apóstolo, “há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem” (1 Tm 2.5). Assim, o ministro de louvor hoje é meramente alguém dependente do verdadeiro mediador, aquele que torna o culto possível, o Senhor Jesus.

4) Jesus não é representante do sacerdócio levítico

Entretanto, apesar de sacerdote, Jesus não pode ser considerado um levita. Um motivo para isso é biológico – ele não é descendente de Levi, mas de Judá. Como ele poderia assumir a função sacerdotal? O segundo motivo é teológico. O autor de Hebreus ensina que Jesus é sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque (Hb 5.10).

O Salmo 110 (não sem motivo o texto do Antigo Testamento mais citado no Novo) nos fala de um rei-sacerdote que se assenta no trono de Davi. De fato,o próprio Davi cumpriu certas funções sacerdotais sem ser realmente um levita. Como isso seria possível? Isso acontece porque esse sacerdote é da mesma ordem de um misterioso personagem de Gênesis 14, um rei de Salém (note as sílabas finais de uma tal Jerusalém) chamado Melquisedeque.

Esse personagem, por estar envolto em tanto mistério, é considerado uma figura de Cristo. Ele era “sem pai, sem mãe, sem genealogia, não tendo princípio de dias nem fim de vida, mas sendo feito semelhante ao Filho de Deus” (Hb 7.3) e tanto rei de justiça, quanto de paz (7.2). Assim,valorizar demais o sacerdócio levítico pode nos levar a renegar uma ordem superior, a de Melquisedeque, por quem vem a perfeição (Hb 7.11).

5) A Nova Aliança, da qual fazemos parte, tornou o sacerdócio levítico caduco
O autor de Hebreus vai mais além e diz que o sacerdócio da ordem de Arão foi revogado. Diante da superioridade de um sacerdote que é eterno (Hb 7.24), mediador de uma Aliança superior (Hb 8.6), ele conclui que o sistema anterior era fraco e não podia aperfeiçoar (7.18,19).

Usando o relato sobre Abraão e Melquisedeque, o autor de Hebreus mostra que, quando o Patriarca entregou seus dízimos ao Rei de Salém, estava ali comprovado que o sacerdócio levítico era inferior ao sacerdócio de Jesus. Como assim? Ele explica que a tribo de Levi era responsável pelo recolhimento do dízimo no antigo Israel. Mas o que vemos em Gênesis? Um antepassado dos levitas entregando as ofertas e sendo abençoado por outro sacerdote! Levi, ainda nos lombos de Abraão (7.10), colocou-se debaixo da autoridade de Melquisedeque. Como sabemos, somente o maior abençoa o menor (7.7).

Assim, depois dessa interpretação pouco usual (mas inspirada), o autor de Hebreus conclui – a Nova Aliança envelheceu a primeira, que está velha e prestes a acabar (8.13). Assim, fazer referência a essa instituição em cultos neotestamentários é exaltar as sombras que passaram, que não aperfeiçoam (10.1) e são fundadas no que é terrestre e passageiro (8.2).

6) Em Cristo, todos somos sacerdotes

Unidos a Cristo, somos tratados como portadores de sua perfeita vida de obediência e, assim, podemos ser considerados sacerdotes. Um dos chamados de Israel era ser um reino de sacerdotes (Êx 19.6) – justamente a posição que Adão falhou em cumprir. O apóstolo Pedro aplica essa expressão à igreja e afirma que somos sacerdócio real (1 Pe 2.9).

Da mesma forma que a humanidade foi chamada, no primeiro Adão, para guardar o Éden, a nova humanidade, no último Adão, é chamada a ministrar na Nova Criação. Todos os crentes são chamados a adorar e oferecer sacrifícios (Rm 12.1), não apenas uma classe especial de pessoas. É isso que chamamos de sacerdócio universal dos crentes.

7) Cria uma divisão entre crentes “levitas” e “não-levitas”

A última razão é mais prática que teológica. Em muitas igrejas, essa separação entre “ministros de louvor” e a congregação gera uma perigosa classificação de espiritualidade. É claro que pessoas que se colocam à frente da congregação (e, de certa forma, ensinam e lideram o rebanho) devem tomar um cuidado especial em relação a suas atitudes e serão responsabilizados mais rigorosamente.

Entretanto, isso não coloca necessariamente os cantores e músicos em algum tipo de posição diferente, como alguém mais consagrado, um foco maior de ataques do inimigo, imune à críticas, etc. Tanto pastores, quanto músicos e “leigos” são aceitos por Deus por meio da fé em Cristo, porque ele viveu e morreu de forma perfeita por nós. Diante de Deus, todos têm 100% de aprovação.

Ao mesmo tempo em que músicos e cantores devem estar atentos para que não caiam, eles precisam se lembrar de que a cruz nivela tudo – somos todos merecedores da ira eterna, somos todos considerados perfeitos por Deus. Em Cristo, não em Levi, todos somos templo,sacrifício e sacerdotes. Se Deus nos uniu assim, quem somos nós para separar?

Em Cristo, não em Levi, todos somos templo, sacrifício e sacerdotes. Se Deus nos uniu assim, quem somos para separar?


1 Para uma tabela que mostra a ligação ente o Éden e o Templo/Tabernáculo, ver God’s Glory in Salvation through Judgment: a Biblical Theology,  de James M. Hamilton. Boas informações também em From  Eden to  the New Jerusalem,  de T. Desmond  Alexander.

Fonte: Ipródigo