quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Arthur W. Pink - Na justificação, a fé é um instrumento



...como somos justificados pela fé? Havendo dado uma tríplice resposta negativa: não pela fé como uma causa unida com obras (Romanistas), não pela fé como um ato de graça em nós (Arminianos), não pela fé como a recepção do testemunho do Espírito (Antinomianos); agora damos a resposta positiva. A fé justifica somente como um instrumento que Deus estabeleceu para a apreensão e aplicação da justiça de Cristo.
Quando dizemos que a fé é o “instrumento” de nossa justificação, deve entender-se claramente que não queremos dizer que a fé é o instrumento com o qual Deus justifica, mas o instrumento por meio do qual recebemos a Cristo. Cristo tem merecido a justiça para nós, e a fé em Cristo é o que faz que ante a vista de Deus a benção adquirida seja designada. A fé une com Cristo, e estando unidos com Ele somos possuidores de tudo o que está em Cristo, tanto como seja compatível com nossa capacidade de receber e a disposição de Deus para dar. Havendo sido feitos um com Cristo em espírito, Deus agora nos considera legalmente um com Ele.

...somos justificados por meio da fé, e não pela fé; não por causa do que a fé é, mas por causa do que a fé recebe. “Ela não tem eficácia por si mesma, mas como um vínculo de nossa união com Cristo. Toda a virtude de limpeza procede de Cristo, o objeto de nossa fé. Nós recebemos a água com nossas mãos, porém a virtude limpadora não está em nossas mãos, mas na água, porém a água não pode nos limpar se não a recebemos; ao recebê-la, unimos a água conosco, e é a maneira pela qual somos limpos. E por isso se observa que nossa justificação pela fé sempre é expressa em voz passiva, não na ativa: somos justificados por meio da fé, não que a fé nos justifique. A eficácia está no sangue de Cristo; a recepção dela está em nossa fé” (S. Charnock).

..."como justifica a fé o pecador diante de Deus? Resposta: A fé justifica o pecador diante de Deus, não por causa das outras graças que sempre a acompanham, nem por causa das boas obras que são os frutos dela, nem como se fosse a graça da fé, ou qualquer ato dela, que lhe é imputado para a justificação; mas unicamente porque a fé é o instrumento pelo qual o pecador recebe e aplica a si Cristo e a Sua justiça." (Catecismo Maior de Westminster). Ainda que esta definição tenha sido construída há mais de duzentos e cinqüenta anos atrás, ela é muito superior a quase qualquer outra definição sobre o tema, encontrado na literatura atual. É mais seguro falar da fé como o “instrumento” antes do que como uma “condição”, porque uma “condição” é geralmente usada para significar que por causa dessa condição um benefício é conferido. A fé não é nem a base nem a substância de nossa justificação, mas simplesmente a mão que recebe o dom divino que nos é oferecido no Evangelho.

Textos extraídos do livro "A doutrina da justificação", traduzido pelo Monergismo

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Greg Gilbert - Confundir o pecado com os efeitos do pecado

Está ficando comum apresentar o evangelho por dizer que Jesus salva a humanidade de um senso inato de culpa, ou de falta de significado, ou de falta de propósito, ou de falta de sentido. É claro que essas coisas são realmente problemas, e muitas pessoas as sentem profundamente. Mas, a Bíblia ensina que o problema fundamental da humanidade – aquilo do que precisamos ser salvos – não é falta de significado, a desintegração de nossa vida ou mesmo um debilitante senso de culpa.

Essas coisas são apenas sintomas de um problema muito mais profundo: o nosso pecado. O que temos de entender é que a triste situação em que estamos é algo que nós mesmos produzimos. Nós temos desobedecido à Palavra de Deus. Nós temos ignorado os mandamentos de Deus. Nós temos pecado contra Ele.

Falar sobre ser salvos da falta de significado ou da falta de propósito sem reconhecer que essas coisas têm sua origem no pecado pode tornar o remédio mais fácil de ser tomado, mas é o remédio errado. Isso permite que o ouvinte continue pensando em si mesmo como uma vítima e nunca encare o fato de que é um criminoso, injusto e merecedor de condenação.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Henry Virkler - Inerrância bíblica e cristologia


...há vários motivos pelos quais o problema da inerrância é importante para os evangélicos. Primeiro, se a Bíblia erra quando trata de questões não essenciais à salvação, então ela pode incidir em erro toda vez que fala da natureza do homem, das relações interpessoais e familiares, dos comportamentos sexuais, da vontade e das emoções, e de uma hoste de outros problemas relacionados com o viver cristão. Uma Bíblia que erra pode ser apenas um reflexo da filosofia e psicologia hebraicas antigas, com pouca coisa para oferecer-nos. Segundo, conforme a história da igreja tem repetidamente demonstrado, os grupos que começam por questionar a validade de pequenos detalhes bíblicos, finalmente questionam também doutrinas maiores. Muitos observadores atuais têm visto repetir-se este padrão: a aceitação de uma passagem bíblica errante em assuntos periféricos logo se faz seguir da alegação de que a Escritura erra em ensinos mais centrais.
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...muitas pessoas preferem não se envolver em questões doutrinárias e teológicas. Para elas, o importante é um relacionamento salvador com Jesus, e não vêem relacionamento entre cristologia e outros problemas, nem se preocupam com isso. Harold Lindsell destaca o estreito relacionamento entre cristologia e inerrância: “Se Jesus ensinou a inerrância bíblica, ele sabia que a inerrância bíblica era verdadeira, ou sabia que era falsa mas a usou como um instrumento para a ignorância de seus ouvintes, ou ele estava limitado e, sem o saber, sustentava algo que não era verdadeiro.”
A aceitação de qualquer das duas últimas opções conduz a uma estranha cristologia. Se Jesus sabia que a inerrância era falsa mas ensinou ao contrário, ele foi culpado de impostura e não poderia ter sido um ser sem pecado; portanto, ele era incapaz de prover uma expiação imaculada para nossos pecados. Se o entendimento que Jesus tinha da verdade era tão limitado ao ponto de ele ensinar inverdade, então não temos garantia de que seu ensino sobre outras questões, como a salvação, seja verídico. A única alternativa que nos deixa com nossa cristologia intacta é que Jesus sabia que a Bíblia é inerrante e que seu conhecimento era correto.

Extraído do excelente livro “Hermenêutica avançada” da Ed. Vida

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Vincent Cheung - Caridade, um evangelho social


 
Existe um contexto, um pano de fundo, por detrás de todas as obras de caridade que a igreja realiza, e esse pano de fundo é a fé em Jesus Cristo. É um erro grave – um erro danoso – supor que o Cristianismo é primariamente um sistema de ética, ou que ele é principalmente um chamado para a justiça social e as obras de caridade. Interpretar o Evangelho de Jesus Cristo como puramente, ou até mesmo principalmente, um evangelho social é distorcer a sua mensagem e negar o seu poder. Boas obras não produzem uma religião pura, mas esta produz as boas obras. Esta distinção deve ser mantida.

Algumas pessoas estão aparentemente tão ávidas para alcançar certos tipos de pessoas que elas se transformariam tanto para se adaptar àquelas, que no final dificilmente restaria alguma diferença considerável entre elas e as pessoas que estão tentando alcançar. Se elas são tão parecidas com aquelas pessoas, então porque aquelas precisam se converter? Se elas chegam até aquelas pessoas e usam o mesmo palavreado de baixo calão, vestem o mesmo tipo de roupas, fazem o mesmo tipo de piadas sujas, cantam e ouvem o mesmo tipo de músicas mundanas, e fazem muito de tudo o que os incrédulos fazem, então essas pessoas já foram poluídas.

Tiago diz que a religião pura e imaculada não apenas cuida dos órfãos e viúvas, mas também se mantém guarda alguém de ser poluído pelo mundo. Isso reforça a idéia de que o Cristianismo não é um evangelho social. A filosofia bíblica do ministério e do evangelismo é remover qualquer abertura desnecessária sem ir a extremos ridículos ao fazê-lo. “O que é ridículo?”, você diz. Um exemplo atual é parafrasear todo o Novo Testamento na “linguagem das ruas”. Quando um crente vai para as “ruas” com isto, logo de início ele causa a impressão de que Deus não se importa com a pureza de suas palavras, ou pelo menos que ele não se importa com isto.

Novamente, a filosofia bíblica de ministério é remover qualquer obstáculo desnecessário, mas a filosofia desorientada sobre a qual estamos falando agora crê que a forma de alcançar o mundo é mostrar aos incrédulos que, no final das contas, não somos tão diferentes deles. Olhando da perspectiva da eficácia no ministério, da fidelidade à palavra de Deus, e da perspectiva de manter uma religião pura e imaculada, se esta é a nossa filosofia de ministério, então poderíamos também deixar os órfãos e as viúvas morrerem de fome.

O que eu estou dizendo é que nós não podemos deixar que as preocupações sociais dirijam nossa fé e prática, e não podemos deixar que nossa mensagem se torne meramente um evangelho social; de outra forma, todo o nosso empreendimento se tornará sem poder e sem significado. Nosso trabalho se tornará um que salva o estômago, mas que deixa a alma morrer de fome. De fato, se a igreja se torna uma mera instituição social, uma organização para promover obra de caridade e bem-estar do homem natural, então ela perde sua própria razão de existência.

Ora, o mundo daria boas-vindas à semelhante instituição, e amaria nada mais do que uma igreja humanística e sem poder, ao invés de ouvi-la pregar uma mensagem do céu que também tem implicações éticas e sociais. Assim, nossa obra social e de caridade deve ser dirigida por preocupações espirituais e princípios bíblicos. Ela deve ser fruto da verdadeira fé e da religião pura, e não o objeto último, a natureza ou o propósito da nossa fé.
 
Extraído do livro "Religião Pura" da Ed. Monergismo

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

João Calvino - Fome de lisonjas, e seus estragos

Todavia, quando o ser humano vê que mostram apreço por suas qualidades, inclina-se a acreditar em tudo o que lhe dizem a seu favor. Portanto, não é de admirar que a maior parte do mundo erre desse modo nesse aspecto. Uma vez que os seres humanos têm um amor desordenado e cego por si mesmos, mostram-se dispostos a acreditar que não existe meles nada que mereça desprezo. Assim, sem necessidade de outro advogado, todos acolhem a vã opinião de que o ser humano é auto-suficiente para ter uma vida digna e feliz. Se existem alguns que se dispõem a um sentimento mais modesto, concedendo alguma coisa a Deus para que não pareça que atribuem tudo a si mesmo, não obstante repartem tudo entre Deus e eles. Mas fazem isso de tal maneira que a maior parte da virtude, da sabedoria e da justiça fica com eles. Sendo, pois, assim, que o ser humano é tão inclinado a gabar-se, não há nada que o possa agradar mais do que quando o afagam com vãs lisonjas. É por isso que aquele que mais exalta a excelência da natureza humana é sempre o mais bem recebido. Todavia, essa doutrina – a que ensina o ser humano a aprovar a si mesmo – não faz mais que enganá-lo. E isso, seja quem for aquele em quem se ponha fé, só causará ruína. Pois, que proveito poderemos ter em conceber uma vã aliança para deliberar, ordenar, tentar e empreender o que nos parece bom, e, entretanto, fraquejar, tanto por falta de uma inteligência saudável quanto por falta de capacidade para pretendida realização? Fraquejar, ou mostrar fraqueza, digo eu, desde o começo, e, contudo, insistir nesse intento com coração obstinado até sermos totalmente postos em confusão.  Ora, não pode ver outro fruto aos que se acham capazes de fazer qualquer coisa por sua própria virtude e poder. Se alguém der ouvidos aos mestres que falam dessa maneira, os quais nos distraem querendo que tenhamos consideração por nossa justiça e virtude, esse, que lhes dá ouvidos, não terá proveito nenhum no conhecimento de si próprio, mas estará cego, vítima de perniciosa ignorância.
Texto extraído das "As Institutas - Vol 1" - Ed. Cultura Cristã

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Arthur W. Pink - Justificação em Cristo


...a regeneração é o ato do Pai (Tiago 1:18), a justificação é a sentença do Juiz. Uma me dá um lugar na família de Deus, a outra me assegura uma posição diante de Seu trono. Uma é interior, sendo a concessão da vida divina à minha alma: a outra é exterior, sendo a imputação da obediência de Cristo à minha conta. Por uma eu sou levado de regresso arrependido à casa do Pai, por outra se me dá uma “melhor vestidura” que me prepara para Sua presença. Segundo, ela difere da santificação. A santificação é moral ou experimental, a justificação é legal ou judicial. A santificação resulta da operação do Espírito em mim, a justificação é baseada no que Cristo fez por mim. Uma é gradual e progressiva nesta vida; a outra é completa e não admite adição. Uma tem que ver com meu estado, a outra tem que ver com minha posição diante de Deus. A santificação produz uma transformação de caráter; a justificação é uma mudança de status legal: é uma mudança desde a culpa e condenação ao perdão e aceitação, e isto somente por um ato de graça por parte de Deus, fundamentado sobre a imputação da justiça de Cristo, por meio do instrumento da fé somente. Ainda que a justificação está totalmente diferenciada da santificação contudo, a santificação sempre a acompanha.
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...de Deus se diz ser “justificado” (Romanos 3:4), porém seria blasfêmia falar dEle como sendo “perdoado” - isto mostra imediatamente que as duas coisas são diferentes. Um criminoso poderia ser perdoado, porém somente uma pessoa justa pode ser realmente justificada. O perdão trata somente com os atos de um homem, a justificação com o homem em si. O perdão considera aos pedidos de clemência, a justificação aos de justiça. O perdão somente livra da maldição causada pelo pecado; a justificação além disso, outorga um direito ao céu. A justificação se aplica ao crente com respeito às demandas da lei, o perdão com respeito ao Autor da lei. A lei não perdoa, já que ela não admite afrouxamento; porém que Deus perdoa as transgressões da lei em Seu povo provendo uma satisfação à lei, adequada a suas transgressões. O sangue de Cristo foi suficiente para proporcionar o perdão (Efésios 1:7), porém Sua justiça é necessária para a justificação (Romanos 5:19). O perdão liberta da morte (2 Samuel 12:13), porém a justiça imputada é chamada “justificação de vida” (Romanos 5:18). Uma vê ao crente como completamente pecador, a outra como completamente justo.
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...o Senhor Jesus sofreu as penalidades da lei no lugar deles, e através de Sua morte expiatória eles foram limpos de toda culpa. Como criaturas, eles estavam debaixo de obrigações para obedecer a Lei de Deus; como criminosos (transgressores) eles estavam sob a sentença da morte da lei. Portanto, para cumprir nossas obrigações e pagar nossas dívidas foi necessário que nosso Substituto tanto obedecesse como morresse. O derramamento do sangue de Cristo apagou nossos pecados, porém isto, por si só, não nos provê o “melhor vestido”. Silenciar as acusações da lei contra nós de modo que agora “nenhuma condenação há para quem está em Cristo Jesus” é simplesmente uma benção negativa: algo mais é requerido, ou seja, uma justiça positiva, o cumprimento da lei, para que possamos ter o direito à sua benção e recompensa.
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...como Cristo “não conheceu pecado” pela impureza interior ou comissão pessoal, assim nós “conhecemos” ou não tivemos justiça de nossa própria conformidade interior à lei, nem pela obediência pessoal à ela. Como Cristo se “fez pecado” por haver sido nossos pecados postos a Sua conta ou carregados sobre Ele em um modo judicial, e como não foi por uma conduta criminal de Si mesmo que Ele se “fez pecado”, assim não é por alguma atividade piedosa de nós mesmos que chegamos a ser “justos”: Cristo não se “fez pecado” pela infusão de depravação, nem nós somos “feito justiça” pela infusão de santidade. Ainda que pessoalmente santo, nosso Responsável, entrando em nosso lugar legal, se entregou a Si mesmo oficialmente devedor à ira de Deus; e assim apesar de pessoalmente malvados, temos, em virtude de nossa identificação legal com Cristo, direito ao favor de Deus.
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...Cristo não poderia haver sofrido em lugar do culpado a menos que sua culpa houvesse sido primeiramente transferida a Ele. Os sofrimentos de Cristo foram penais. Deus por um ato de graça transcendente (para conosco) pôs as iniqüidades de todos os que são salvos sobre Cristo, e em conseqüência, a justiça Divina encontrando pecado sobre Ele, O castigou. Aquele que de nenhum modo tem por inocente ao culpado deve atacar o pecado e ferir seu portador, não importa se este é o próprio pecador ou Um que vicariamente toma seu lugar. Mas como G.S. Bishop bem disse: “Quando a justiça golpeia uma vez ao Filho de Deus, a justiça se esgota. O pecado é castigado em um Objeto Infinito”. A expiação de Cristo foi contrária a nossos processos legais porque esta se eleva por cima de suas limitações finitas!

Textos extraídos do livro "A doutrina da justificação", traduzido pelo Monergismo

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Charles H. Spurgeon - Um jumento e um jumentinho

...eu gostaria de observar que este era um reino no qual todas as criaturas foram consideradas. Porque Cristo tinha dois animais? Havia um jumento e um jumentinho, cria de jumento; ele montou o filhote de jumento porque ele nunca tinha sido montado antes. Eu já observei diversos comentaristas para ver o que eles dizem acerca disso, e um antigo comentarista me fez rir - Eu creio que ele não fará você rir também - dizendo que Cristo ordenando a seus discípulos para trazerem o filhote e também a mãe nos ensinaria que os infantes devem ser batizados tanto quanto seus pais, o que me parece ser um argumento eminentemente digno do batismo infantil. Pensando no assunto acima, contudo, eu considero que há uma melhor razão a ser dada, - Cristo não teria qualquer dor em seu reino, ele não teria nem mesmo um jumento sofrendo por ele, e se o filhote fosse tirado de sua mãe, lá estaria a pobre mãe no estábulo em casa, pensando em seu filhote, e lá estaria o filhote desejando voltar, como aquelas vacas que os filisteus usaram quando eles devolveram a arca, e que foram mugindo enquanto seguiam seu caminho, porque seus bezerros estavam em casa. Impressionante reino de Cristo no qual o animal natural possuirá sua parte!. "Porque a criatura foi sujeita a vaidade de nosso pecado." Ele era um animal que sofria por causa do nosso pecado, e Cristo pretende que seu reino traga de volta os animais à sua primitiva felicidade. Ele nos faria homens misericordiosos, considerando até mesmo os animais.
Eu creio que quando seu reino vier totalmente, a natureza animal será reconduzida à sua felicidade original. "Então o leão comerá feno como o boi, a criança de peito brincará na toca da áspide, e a criança desmamada colocará sua mão no esconderijo do basilisco." A velha tranqüilidade do Éden, e a familiaridade entre o homem e as criaturas e as criaturas inferiores, retornará novamente. E mesmo agora, sempre que o Evangelho é totalmente conhecido no coração do humano, o homem começa a reconhecer que ele não tem direito deliberado para matar um pardal ou um verme, porque ele está no domínio de Cristo, e aquele que não montou o jumentinho sem ter a mãe dele ao seu lado, para que isso pudesse ser em paz e alegria, não teria qualquer de seus discípulos pensando negligentemente da mais inferior criatura feita pela sua mão. Bendito reino este que considerou até mesmo o desprezado! Deus cuida dos bois? Oh, que ele cuide; e que o próprio jumento, aquele herdeiro do trabalho, seja cuidado. O reino de Cristo, então, cuidará de animais tanto quanto de homens.

Extraído do livro "A entrada triunfal em Jerusalém"

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Arthur W. Pink - Qual é o propósito da oração



 ...dizer que “Deus ordenou que os destinos dos homens podem ser mudados e moldados pela vontade do homem” é algo completamente falso. O destino humano é decidido, não pela “vontade do homem”, e, sim, pela vontade de Deus. O que determina o destino do homem é se o homem nasceu de novo ou não, porquanto está escrito: “Se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus” (Jo 3.3). E qualquer dúvida, se é a vontade de Deus ou a vontade do homem a responsável pelo novo nascimento, é esclarecida, de forma inequívoca, em João 1.13: “Os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus”. Dizer que o destino humano pode ser mudado pela vontade do homem é tornar suprema a vontade da criatura, o que virtualmente significa destronar a Deus. Mas, que dizem as Escrituras? Que elas respondam: “O SENHOR o que tira a vida e a dá; faz descer à sepultura e faz subir. O SENHOR empobrece e enriquece; abaixa e também exalta. Levanta o pobre do pó e desde o monturo exalta o necessitado, para o fazer assentar entre os príncipes, para o fazer herdar o trono de glória” (1 Sm 2.6-8).
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...a oração foi instituída para que o próprio Senhor Deus seja honrado. Deus requer que reconheçamos que Ele é, de fato, “o Alto, o Sublime, que habita a eternidade” (Is 57.15). Deus requer que reconheçamos o seu domínio universal. Quando Elias orou para que chovesse, reconheceu que Deus exerce controle sobre os elementos da natureza; ao orarmos que Deus liberte um miserável pecador da ira vindoura, reconhecemos que “ao SENHOR pertence a salvação!” (Jn 2.9); ao suplicarmos que Ele abençoe a pregação do evangelho até aos confins da terra, declaramos que Ele é quem rege o mundo inteiro.
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...a oração não tem a finalidade de alterar os desígnios de Deus, nem de movê-lo a formular novos propósitos. Deus já decretou que certas coisas hão de suceder, mas também decretou que sucederão através dos meios que Ele mesmo determinou para levá-las a efeito. Deus escolheu certas pessoas para a salvação, mas também decretou que sejam salvas através da pregação do evangelho. O evangelho, pois, é um dos meios determinados para a concretização do conselho eterno do Senhor. A oração é outro desses meios. Deus decretou os fins, mas igualmente os meios, e entre esses está a oração. Até as orações do seu povo fazem parte dos seus decretos eternos. Portanto, longe de serem vãs, as orações são instrumentos, entre outros, por meio dos quais Deus cumpre os seus decretos. “Se, na verdade, tudo sucede pelo cego acaso ou por necessidade fatal, não haveria qualquer eficácia moral nas orações, e nenhuma utilidade; mas, sendo reguladas pela orientação da sabedoria divina, as orações têm um lugar na ordem dos acontecimentos” (Haldane).
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...nossos pontos de vista sobre a oração carecem de revisão para se harmonizarem com os ensinos das Escrituras, quanto a esse aspecto. Parece que a idéia que atualmente prevalece é esta: apresento-me a Deus para pedir algo que quero e passo a ter a certeza de que Ele me dará aquilo que Lhe pedi.
Porém, essa é uma idéia que avilta e degrada a Deus. As crenças populares reduzem Deus à função de servo, nosso servo — cumprindo nossas ordens, executando nossa vontade, atendendo nossos desejos. Não! Orar é vir a Deus, contando-Lhe a minha necessidade, entregando-Lhe os meus caminhos, deixando-O agir conforme melhor Lhe aprouver. Isto torna minha vontade sujeita à dEle, ao invés de, como no caso anterior, procurar que a vontade dEle se sujeite à minha. Nenhuma oração agradará a Deus se não for movida pelo espírito que diz: “Não se faça a minha vontade, e, sim, a tua” (Lc 22.42).

Textos extraídos de "A soberania de Deus e a oração". Leia todo o texto em Monergismo