sexta-feira, 25 de novembro de 2011

João Calvino - Deus deseja salvar todos?


“Pois isto é bom e agradável diante de Deus nosso Salvador, o qual deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade” (1Tm 2.3,4).

Isso é bom e aceitável. Havendo demonstrado que o mandamento que ele promulgara é excelente, agora apela para um argumento mais enérgico, a saber: que é agradável a Deus. Pois quando sabemos que essa é a vontade de Deus, cumpri-la é a melhor que todas as demais razões. Pelo termo, 'bom', ele tem em mente o que é certo e lícito; e, visto que a vontade de Deus é a regra pela qual devemos regulamentar todos os nossos deveres, ele prova que ela é justa, porque é aceitável a Deus.

Esta passagem merece detida atenção, pois dela podemos extrair o princípio geral de que a única norma genuína para agir bem e com propriedade é acatar a e esperar na vontade de Deus, e não empreender nada senão aquilo que ele aprova. E essa é também a regra da oração piedosa, a saber: que tomemos a Deus por nosso Líder, de modo que todas as nossas oração sejam regulamentadas por sua vontade e comando. Se essa regra não houvera sido suprimida, as orações dos papistas, hoje, não seriam tão saturadas de corrupções. Pois, como poderão provar que detêm a autoridade divina para se dedicarem à intercessão dos santos falecidos, ou eles mesmos praticarem a intercessão em favor dos mortos? Em suma, em toda a sua forma de orar, o que poderão apresentar que seja do agrado de Deus?

Daqui se deduz uma confirmação do segundo argumento, o fato de que Deus deseja que todos os homens sejam salvos.

Pois, que seria mais razoável do que todas as nossas orações se conformarem a este decreto divino? Concluindo, ele demonstra que Deus tem no coração a salvação de todos os homens, porquanto ele chama a todos os homens para o conhecimento de sua verdade. Este é um argumento que parte de um efeito observado em direção à sua causa. Pois se "o evangelho é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê" [Rm 1.16], então é justo que todos aqueles a quem o evangelho é proclamado sejam convidados a nutrir a esperança da vida eterna. Em suma, visto que a vocação [do evangelho] é uma prova concreta da eleição secreta, então Deus admite à posse da salvação aqueles a quem ele concedeu a bênção de participarem de seu evangelho, já que o evangelho nos revela a justiça de Deus que garante o ingresso na vida.
A luz desse fato, fica em evidência a pueril ilusão daqueles que crêem que esta passagem contradiz a predestinação. Argumentam: "Se Deus quer que todos os homens, sem distinção alguma, sejam salvos, então não pode ser verdade que, mediante seu eterno conselho, alguns hajam sido predestinados para a salvação e outros, para a perdição." Poderia haver alguma base para tal argumento, se nesta passagem Paulo estivesse preocupado com indivíduos; e mesmo que assim fosse, ainda teríamos uma boa resposta. Porque, ainda que a vontade de Deus não deva ser julgada à luz de seus decretos secretos, quando ele no-los revela por meio de sinais externos, contudo não significa que ele não haja determinado secretamente, em seu íntimo, o que se propõe fazer com cada pessoa individualmente.

Mas não acrescentarei a este tema nada mais, visto o assunto não ser relevante ao presente contexto, pois a intenção do apóstolo, aqui, é simplesmente dizer que nenhuma nação da terra e nenhuma classe social são excluídas da salvação, visto que Deus quer oferecer o evangelho a todos sem exceção. Visto que a pregação do evangelho traz vida, o apóstolo corretamente conclui que Deus considera a todos os homens como sendo igualmente dignos de participar da salvação. Ele, porém, está falando de classes, e não de indivíduos; e sua única preocupação é incluir em seu número príncipes e nações estrangeiros. Que a vontade de Deus é que eles também participem do ensinamento do evangelho é por demais óbvio à luz das passagens já citadas e de outras afins. Não é sem razão que se disse: "Pede-me, e eu te darei as nações por herança, e as extremidades da terra por tua possessão" [SI 2.8]. A intenção de Paulo era mostrar que devemos ter em consideração, não que tipo de homens são os príncipes, mas, antes, o que Deus queria o que fossem. Há um dever de amor que se preocupa com a salvação de todos aqueles a quem Deus estende seu chamamento e testifica acerca desse amor através das orações piedosas.

E nessa mesma conexão que ele chama Deus nosso Salvador, pois de qual fonte obtemos a salvação senão da imerecida munificência divina? O mesmo Deus que já nos conduziu à sua salvação pode, ao mesmo tempo, estender a mesma graça também a eles. Aquele que já nos atraiu a si pode uni-los também a nós. O apóstolo considera como um argumento indiscutível o fato de Deus agir assim entre todas as classes e todas as nações, porque isso foi predito pelos profetas.

Fonte: O Calvinista

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Gary North - Como Deus pode garantir o bem para o Seu povo sem predestinar o bem?


Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito. (Romanos 8:28, ARA)

Todas as coisas? Isso significa cada e toda coisa? Isso é o que o texto diz.

Considere as implicações dessa promessa. Ela significa que toda a vida de uma pessoa regenerada está sob a garantia de Deus. Cada ato, cada decisão tem um significado. Mesmo atos maus têm um papel a desempenhar – uma parte que trabalha juntamente com todas as outras partes. O todo é assegurado; portanto, as partes devem ser igualmente asseguradas. Mas se as partes são asseguradas, de antemão, para se encaixarem num todo, isso não significa predestinação? De que outra forma Deus poderia garantir o resultado de “todas as coisas”? O que o versículo seguinte diz?

Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos.

Cristo poderia ter se tornado o primogênito entre poucos irmãos? Entre nenhum irmão? Deus diz que não. Cristo foi o primogênito entre muitos irmãos. Deus tinha predestinado a existência deles, no tempo e na eternidade. Pode algum homem – mesmo o indivíduo cuja conversão foi predestinada – anular a garantia de Deus? Como?

Resposta Questionável
“Quando Deus diz ‘predestinar’ Ele quer na verdade dizer ‘pré-conhecer’. Deus sabe de antemão quem O aceitará ou rejeitará (ou aceitará Sua graça, e então cairá da graça), e Ele garante o potencial para todas as coisas trabalharem para o bem. Mas Ele não garante o bem real. Ele apenas prevê o potencial para o bem.”
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Minha Resposta: O texto é claro. Todas as coisas cooperam para o bem. Não algumas – todas! A menos que o uso da palavra diga outra coisa, devemos tomar a palavra todas seriamente.

Então Paulo levanta o assunto da predestinação. Isso segue sua discussão de “todas as coisas”. Quão mais claro ele poderia ser? Deus garante todas as coisas porque Ele predestina todas as coisas para beneficiarem Seus seguidores. Sim, Paulo diz que Deus “de antemão conheceu” Seus seguidores, mas então diz que Deus predestina. O que predestinar significa? Paulo não diz que significa a garantia de todas as coisas (eventos) cooperarem para o plano global de Deus? Sua garantia faz sentido apenas dentro da estrutura de Seu poder soberano para fazer com que todas as coisas aconteçam de uma forma que produza o bem para aqueles chamados segundo o Seu propósito.

Presciência e predestinação andam de mãos dadas, diz Paulo. Você não pode ter um sem ter o outro. Pode alguém mostrar como a definição bíblica de presciência nega a predestinação?

Se “predestinação” significa “presciência” [conhecer de antemão], porque Paulo usa as duas palavras na mesma sentença?


Para estudo adicional: Dn. 2:20-21; 5:25-31;
Mt. 11:27; 20:15; 22:14; Lucas 10:22.

Fonte: 75 Bible Questions Your Instructors Pray
You Won’t Ask, Gary North, (Institute for
Christian Economics, 1988), p. 25-26.
Tradução: Felipe Sabino de Araújo Neto
Acesse este texto em Monergismo

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Arthur W. Pink - O Evangelho e o pecado


O que é o Evangelho? É uma mensagem de boas novas do Céu para fazer com que rebeldes que desafiam a Deus fiquem à vontade em sua impiedade? É dado com o propósito de dar a certeza a jovens loucos por prazeres que, contanto que apenas “creiam” não há nada para temerem no futuro? Certamente se pensaria assim pela maneira na qual o Evangelho é apresentado...
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O Evangelho não é uma coisa à parte. Não é algo independente da revelação anterior da Lei de Deus. Não é um anúncio de que Ele afrouxou Sua justiça ou rebaixou o padrão de Sua santidade...
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...o Evangelho está muito, muito longe de dar pouca importância ao pecado. O Evangelho nos mostra o quão francamente Deus trata com o pecado. Ele revela-nos a terrível espada da Sua justiça castigando Seu amado Filho a fim de que a expiação pudesse ser feita pelas transgressões do Seu povo. Longe de o Evangelho pôr de lado a Lei, ele exibe o Salvador suportando a maldição dela. O Calvário forneceu a mais solene e inspiradora mostra de temor reverente do ódio de Deus ao pecado que o tempo ou a eternidade jamais fornecerão. E você imagina que o Evangelho seja exaltado ou Deus glorificado sendo oferecido aos mundanos e dizendo-lhes que eles “podem ser salvos neste momento por simplesmente aceitar a Cristo como o seu Salvador pessoal”, enquanto estão apegados aos ídolos e seus corações ainda amantes do pecado?...
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A salvação é pela graça, pela graça somente, pois a uma criatura caída não há nada que possa ela fazer para merecer a aprovação divina ou ganhar a sua aprovação. Contudo, a graça divina não é exercida à custa da santidade, pois a última nunca transige com o pecado. É igualmente verdade que a salvação é um dom gratuito, mas uma mão vazia é que deve recebê-la, e não uma que ainda se agarra fortemente ao mundo!...
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Textos extraídos do livro “Estudo sobre a fé salvítica”de Monergismo

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Paulo Corrêa - Cinco Solas

 

Infelizmente, muitos evangélicos ainda não conhecem os Solas. Por esse motivo, disponiblizamos este resumo em PDF para que todos possam imprimir e divulgá-los. Os Solas são as verdades centrais, ou os princípios, da reforma protestante e do evangelicalismo histórico. Por isso, toda igreja protestante (ou evangélica como é conhecida hoje) deve basear-se nos 5 Solas:

1) Sola Scriptura – “Somente a Escritura”, ou a autoridade e suficiência das Escrituras
Afirmamos que a Escritura é inerrante como fonte única de revelação divina escrita e única para constranger a consciência. A Bíblia sozinha ensina tudo que é necessário para a nossa salvação do pecado, e é o padrão pelo qual todo comportamento cristão deve ser avaliado. Negamos qualquer credo, concílio ou indivíduo que possa constranger a consciência de um crente; que o Espírito Santo fale independentemente de, ou contrariando, o exposto na Bíblia; e também que a experiência espiritual pessoal possa ser veículo de revelação.

2) Solus Christus -“Somente Cristo”, ou a suficiência e exclusividade de Cristo
Afirmamos que nossa salvação é realizada unicamente pela obra mediatória do Cristo histórico. Sua vida sem pecado e sua expiação por si só são suficientes para nossa justificação e reconciliação com o Pai. Negamos que o evangelho esteja sendo pregado se a obra substitutiva de Cristo não estiver sendo declarada e a fé em Cristo e sua obra não estiverem sendo invocadas.

3) Sola Gratia – “Somente a Graça”, ou a única causa eficiente da salvação
Afirmamos que na salvação somos resgatados da ira de Deus unicamente pela sua graça. A obra sobrenatural do Espírito Santo é que nos leva a Cristo, soltando-nos de nossa servidão ao pecado e erguendo-nos da morte espiritual à vida espiritual. Negamos que a salvação seja em qualquer sentido obra humana. Os métodos, técnicas ou estratégias humanas por si só não podem realizar essa transformação. A fé não é produzida pela nossa natureza não-generada.

4) Sola Fide -“Somente a Fé”, ou a exclusividade da Fé como meio de Justificação.
Afirmamos que a justificação é pela graça somente, por intermédio da fé somente por causa de Cristo. Na justificação a retidão de Cristo nos é imputada como o único meio possível de satisfazer a perfeita justiça de Deus. Negamosque a justificação se baseie em qualquer mérito que em nós possa ser achado, ou com base numa infusão da justiça de Cristo em nós; ou que uma instituição que reivindique ser igreja, mas que negue ou condene sola fide possa ser reconhecida como igreja legítima.

5) Soli Deo Glória – “A Deus somente, a glória”, ou a exclusividade do serviço e da adoração a Deus.
Afirmamos que, como a salvação é de Deus e realizada por Deus, ela é para a glória de Deus e devemos glorificá-lo sempre. Devemos viver nossa vida inteira perante a face de Deus, sob a autoridade de Deus, e para sua glória somente. Negamos que possamos apropriadamente glorificar a Deus se nosso culto for confundido com entretenimento, negligenciando ou a Lei ou o Evangelho em nossa pregação, ou permitindo que o aperfeiçoamento próprio, a auto-estima e a auto-realização se tornem opções alternativas ao evangelho.
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Notas
Boice, James M. e Outros. Reforma Hoje. Editora Cultura Cristã 1999
George, Timothy. Teologia dos Reformadores. Editora Vida Nova.