sábado, 23 de junho de 2012

Santo Anselmo - Criou tudo do nada


Todo ser que produz outro é causa daquilo que origina e faz-se mister que toda causa preste uma ajuda qualquer à essência do seu efeito.
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Se, portanto, alguma coisa foi feita do nada, o nada é a causa daquilo que foi produzido. Mas, de que modo aquilo que não possui existência pode oferecer ajuda a algo para transitar ao ser? E se o nada não pode oferecer nenhuma ajuda, como persuadir a alguém que uma coisa consegue originar-se do nada? De que modo persuadi-lo?

Mais ainda. O nada ou é alguma coisa ou não é nenhuma. Se é alguma coisa, então tudo o que saiu do nada foi feito de algo. Mas, ao contrário, se não é nenhuma coisa, fica incompreensível como algo possa ser feito do nada, que é carência de tudo: do nada, nada se origina, como sói dizer-se comumente. Donde se conclui que tudo aquilo que foi feito recebeu a origem de algo, pois uma coisa é feita de algo ou de nada. Pense-se, então, o nada como sendo alguma coisa ou nenhuma, porém fica evidente que tudo o que foi feito origina-se de algo.
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...algo foi feito do nada para significar que a coisa realmente foi feita sem que exista, entretanto, nada que possa originá-la. Fala-se, assim, por exemplo, de um homem oprimido pela tristeza sem motivo: "está triste", dizemos, "por nada".

Se entendermos neste último sentido o que expusemos acima (a saber: que, salvo a essência suprema, todas as coisas que derivam dela foram criadas por ela do nada, isto é, que não foram feitas de algo), a nossa conclusão estará de acordo com as premissas e não decorrerá dela nenhuma contradição. Assim, sem nenhum inconveniente ou contradição poder-se-á dizer que as coisas feitas pela substância criadora foram feitas do nada, do mesmo modo que costumamos nos referir a um homem que, de pobre, ficou rico ou que, depois da doença, recobrou a saúde, querendo significar, com isso, que ele agora é rico e, antes, não possuía nada, ou que, agora, tem a saúde que, antes, não tinha. Assim, também sem inconvenientes pode ser entendida a afirmação que a essência criadora fez a universalidade das coisas do nada, ou que o universo foi criado, por meio dela, do nada. O que vale dizer que todas aquelas coisas que antes não existiam, porque eram nada, agora são algo.

Com esta mesma expressão com que se afirma que ela fez todas as coisas ou que todas as coisas foram feitas por ela, compreende-se que, quando ela criou, criou efetivamente algo, e que quando as coisas foram criadas, realmente elas tornaram-se algo.

Fonte: “Os Pensadores – Vol VII” da Abril Cultural

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Martinho Lutero - "Se queres" ou "se desejas", como entender?


Argumento 13: A lei mostra a fraqueza humana e o poder salvador de Deus.

Um outro trecho que você cita é Mateus 19.17: "Se queres, porém, entrar na vida, guarda os mandamentos". Você indaga como é que as palavras "se queres" poderiam ter sido dirigidas a alguém cuja vontade não é livre. No entanto, você já havia concordado que o "livre-arbítrio" não pode querer nenhuma coisa boa e que, sem a graça divina, pode somente servir ao pecado. Como, então, pode querer provar que a vontade humana é inteiramente livre? Será realmente verdade que a cada vez em que dizemos a alguém "se quiseres", ou "se desejas", significa que existe a capacidade de se fazer aquilo? Suponha que digamos o seguinte: "Se você quiser comparar-se a Davi, terá de produzir salmos como os dele". Não estaríamos  dizendo que isso nos seria impossível, a menos que Deus nos capacitasse para tanto? Assim, nas Escrituras encontramos expressões similares a essa, para nos mostrar o que pode ser feito no poder de Deus e o que não podemos fazer por nós mesmos. Essas expressões não somente mostram coisas que não podemos fazer com nossos poderes naturais, mas também revelam uma promessa do tempo em que essas coisas serão realizadas através do poder de Deus. Poderíamos exprimir o sentido das Escrituras assim: "Se chegares a manifestar a vontade de guardar os mandamentos (o que terás, não por ti mesmo, mas através de Deus, que a dá a quem Ele deseja), então, eles te preservarão".

Dessa maneira, podemos perceber que não podemos fazer nenhuma daquelas coisas que nos são ordenadas, ao mesmo tempo em que podemos fazer todas elas; pois, nossas fraquezas pertencem a nós mesmos e a nossa capacidade nos é dada através da graça de Deus.

Fonte: “Nascido escravo” da Editora Fiel

sábado, 16 de junho de 2012

John MacArthur - Evangelho atraente?



Afinal, se a nossa tarefa é alcançar o mundo com o evangelho, por que não procurar expressá-lo de forma atraente à mente humana? Paulo responde a essa pergunta dizendo que tentar fazer isto torna vã a cruz de Cristo. E há duas razões por que isso é verdade. Primeira, a mensagem da cruz “é loucura para os que se perdem” (1Co 1.18). Não podemos torná-la diferente e ainda permanecermos fiéis à Palavra. Segundo, é impossível elevarmos a sabedoria humana sem, com isso, rebaixarmos a verdade divina. A sabedoria humana alimenta a vontade própria, o orgulho intelectual e social, as concupiscências carnais e o desejo de ser independente de Deus. Logo, a sabedoria humana e o evangelho são constitucionalmente incompatíveis. Procure conciliar os dois e, Paulo afirma, você tornará o evangelho nulo e inválido.

A razão pela qual as pessoas gostam de religião sofisticada e moralidade intelectual é o fato de que estas coisas apelam ao ego humano. Ao mesmo tempo, a sabedoria mundana escarnece do evangelho precisamente porque ele confronta a presunção humana. O evangelho exige que as pessoas reconheçam seu pecado e incapacidade espiritual. O evangelho humilha as pessoas, convence-as do pecado, chamando-as de pecadores. Além disso, oferece a salvação como uma obra graciosa de Deus, não algo que alguém possa conquistar por seus próprios esforços. A cruz esmaga completamente o orgulho humano.

Fonte: “Com vergonha do Evangelho” da Editora Fiel

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Vincent Cheung - Jesus e as missões



Mas recebereis a virtude do Espírito Santo, que há-de vir sobre vós; e ser-me-eis testemunhas, tanto em Jerusalém como em toda a Judeia e Samaria, e até aos confins da terra. (Atos 1:8)

O estudo de missões, muitas vezes torna-se numa investigação em sociologia e antropologia, enfatizando culturas e tradições, religião comparativa, intercultural e comunicação inter-racial, e assim por diante. Embora pudesse ser útil considerar estas questões, a própria teologia e método de Jesus são muitas vezes ignorados, e até mesmo opostos. Poder é fundamental na Sua visão de missões. É o poder de falar, o poder de agir, e o poder de realizar feitos extraordinários. No relato bíblico, esse poder é a ferramenta da pregação regular, da defesa perante as autoridades, e nos debates com estudiosos.

Quando se trata do avanço e estabelecimento da fé cristã mundial, Jesus coloca a sua ênfase no poder. Poder é fundamental para o empreendimento missionário. O poder é necessário para todas as atividades do ministério. Uma teologia de missões que não oferece poder de um representante supremo difere radicalmente dos conceitos da Grande Comissão - o que é e como fazê-lo. É uma teologia que discorda Daquele que emitiu esta Comissão. Se quisermos nos tornar missionários fiéis em casa e no exterior, devemos entrar em acordo com Jesus Cristo e retornar para uma ênfase no poder.

Fonte: Trecho traduzido de "Sermonettes Vol 7" em http://www.vincentcheung.com/books/snet07.pdf

Traduzido por Eric N. de Souza

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Greg Koukl - Sete falhas fatais do relativismo



O relativismo moral é um tipo de subjetivismo que sustenta que as verdades morais são muito preferênciais, assim como os nossos gostos por sorvete. O relativismo moral ensina que quando se trata de moral, o que é eticamente certo ou errado, as pessoas podem e devem fazer aquilo que se sentem bem. As verdades éticas dependem dos indivíduos, grupos e culturas que sustenta-os. Porque eles acreditam que a verdade ética é subjetiva, as palavras deveriam e devem ser menos compreensíveis porque a moralidade de todos é a mesma; ninguém tem direito a uma moralidade objetiva que cabe aos outros. O relativismo não exige um determinado padrão de comportamento para as pessoas em situações semelhantes quanto à moralidade. Quando confrontados com exatamente a mesma situação ética, uma pessoa pode escolher uma resposta, enquanto outra pode escolher o oposto. Não há regras universais de conduta aplicáveis a ninguém.

Falha 1

A moral relativista não pode acusar os outros de má conduta. O relativismo torna impossível de criticar o comportamento dos outros, porque o relativismo, em última análise, nega a “má conduta”. Se alguém acredita que a moralidade é uma questão de definição pessoal, então você se rende à possibilidade de fazer julgamentos morais objetivos sobre as ações de outros, não importa quão ofensivas são para a sua noção de certo ou errado. Isto significa que um relativista não pode racionalmente opinar sobre assassinato, estupro, abuso infantil, racismo, atitudes sexuais ou destruição do meio ambiente se essas ações são consistentes com o entendimento moral da pessoa que pratica sobre o que é certo e bom. Quando o certo e o errado são questões de escolha pessoal, nós nos rendemos ao privilégio de fazer julgamentos morais sobre as ações dos outros. No entanto, se estamos certos de que algumas coisas devem ser erradas e que alguns julgamentos contra a conduta de outros são justificáveis - então, o relativismo é falso.

Falha 2

Os relativistas não podem reclamar sobre o problema do mal. A realidade do mal no mundo é uma das primeiras objeções levantadas contra a existência de Deus. Toda objeção depende da observação de que o mal existe. O mal objetivo não pode existir se os valores morais são relativos ao observador. O relativismo é inconsistente com o conceito da existência do mal moral porque nega que alguma coisa pode ser objetivamente errada. Se não existe um padrão moral, então não pode haver desvio de padrão. Assim, os relativistas devem se render ao conceito do mal e, ironicamente, também devem se entregar ao problema do mal como um argumento contra a existência de Deus.

Falha 3

Os relativistas não podem culpar nem aceitar elogios. O relativismo torna os conceitos de elogio e culpa sem sentido, porque nenhum padrão externo de medição define o que deveria ser aplaudido ou condenado. Sem absolutos, nada é, em última análise, ruim, deplorável, trágico ou digno de culpa. Nem bom, honroso, nobre ou digno de louvor. Os relativistas são, quase sempre, inconsistentes aqui, porque eles procuram evitar a culpa, mas prontamente aceitam elogios. Uma vez que a moralidade é uma ficção, assim também os relativistas devem suprimir as palavras de elogio e culpa de seus vocabulários. Se a idéia de elogio e crítica é válida, então o relativismo é falso.

Falha 4

Os relativistas não podem fazer acusações de imparcialidade ou injustiça. De acordo com o relativismo, as noções de equidade e justiça são incoerentes com os conceitos de que as pessoas devem receber igualdade de tratamento com base em algum padrão externo. Contudo, o relativismo acaba com qualquer noção de padrões externos vinculados. Justiça implica punir aqueles que são culpados de um delito. Mas, pelo relativismo, culpa e culpados não existem - se nada é, em última análise, imoral, não há culpa e, portanto, nenhuma culpa é digna de punição. Se o relativismo é verdadeiro, então não há tal coisa como a justiça ou a equidade, porque ambos os conceitos dependem de um padrão objetivo do que é certo. Se as noções de justiça e equidade fazem sentido, então o relativismo é derrotado.

Falha 5

Os relativistas não podem melhorar a sua moralidade. Os relativistas podem mudar a sua ética pessoal, mas eles nunca podem se tornar pessoas melhores. De acordo com o relativismo, a ética nunca pode se tornar "moral". Ética e moral podem mudar, mas nunca podem melhorar, pois não há um padrão objetivo para melhorá-los. Se, contudo, a melhoria dos padrões morais parecem ser um conceito que faz sentido, então o relativismo é falso.

Falha 6

Os relativistas não podem sustentar discussões morais significativas. O que há para falar? Se a moral é totalmente relativa e todas as opiniões são iguais, então não existem pensamentos melhores que outros. Não há uma posição moral que pode ser julgada como adequada ou deficiente, insensata, aceitável, ou até mesmo bárbara. Se as disputas éticas só fazem sentido quando as questões morais são objetivas, então o relativismo só pode ser vivido, de forma consistente, em silêncio. Por este motivo, é raro encontrar um relativista racional e consistente, assim a maioria deles são rápidos para impor suas próprias regras morais como "É errado impor sua própria moralidade nos outros". Isso coloca os relativistas em uma posição insustentável - se eles falam de questões morais, eles ficam a mercê de seu próprio relativismo, se eles não falam, eles se entregam a sua própria humanidade. Se a noção de discurso moral faz sentido, então, o relativismo moral é falso.

Falha 7

Os relativistas não podem promover a compromisso de tolerância. A obrigação moral relativista de ser tolerante é auto-refutável. Ironicamente, o princípio de tolerância é considerado uma das principais virtudes do relativismo. A moral é individual, eles dizem, e, portanto, devemos tolerar os diversos pontos de vista e não julgar suas atitudes e comportamentos. Contudo, se não há regras morais objetivas, não pode haver nenhuma regra que exige a tolerância como um princípio moral que se aplique igualmente a todos. Na verdade, se não há absolutos morais, porquê ser tolerante em tudo? Os relativistas violam seus próprios princípios de tolerância quando não conseguem tolerar as opiniões daqueles que acreditam em padrões morais objetivos. Eles são, portanto, tão intolerantes quanto, freqüentemente, acusam o objetivista moral de ser. O princípio da tolerância é estranho ao relativismo. Se, no entanto, a tolerância parece ser uma virtude, então, relativismo é falso.

A Falência do relativismo

O relativismo moral está falido. Não é um verdadeiro sistema moral. É auto-refutável. É uma hipocrisia. É logicamente inconsistente e irracional. Ele está seriamente prejudicado pelos simples exemplos práticos. Torna a moralidade ininteligível. Nem sequer é tolerante! O princípio da tolerância só faz sentido num mundo no qual existem absolutos morais, e somente se um desses padrões absolutos de conduta é "Todas as pessoas devem respeitar os direitos dos outros que divergem na conduta ou opinião". A ética da tolerância pode ser racional somente se a verdade moral é objetiva e absoluta, não subjetiva e relativa. A tolerância é um princípio básico no absolutismo moral e é irracional a partir de qualquer perspectiva de relativismo ético.


As pessoas estão se afogando em um mar de relativismo moral. Relativismo destrói a consciência. Ela produz pessoas sem escrúpulos, porque não fornece condições morais de melhora. É por isso que nós não ensinamos o relativismo para nossos filhos - na verdade, trabalhamos para ensinar-lhes exatamente o oposto. Em última análise, o relativismo é egocêntrico, egoísta e hipócrita. "Fazer por conta própria" é bom para nós, mas nós não queremos que os outros sejam relativistas. Esperamos que eles nos tratem de acordo com um padrão moral aceito.

"Eu já libertei a Alemanha dos estúpidos e degradantes enganos da consciência e moralidade ... Vamos treinar os jovens antes pois através deles o mundo tremerá." Adolf Hitler
Relativismo moral, em um sentido prático, é completamente insuportável. Que tipo de mundo teríamos se o relativismo fosse verdade? Seria um mundo em que nada seria considerado errado - nada seria considerado mau ou bom, nada digno de louvor ou culpa. Seria um mundo em que a justiça e a equidade teriam conceitos sem sentido, em que não haveria prestação de contas, nenhuma possibilidade de aperfeiçoamento moral, sem discurso moral. E seria um mundo em que não haveria tolerância. O relativismo moral produz esse tipo de mundo.

O último comentário do Dr. Francis Schaeffer poderia muito bem ser aplicado aos relativistas morais, que "...têm os dois pés firmemente plantados no ar."

[Adapted from Beckwith, F. & Koukl G (2002), Relativism - Feet Firmly Planted in Mid-Air, Baker Books.]


Traduzido por Eric N. de Souza

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Santo Agostinho - Milagres e magia



Percebo aqui a pergunta que poderia ocorrer às inteligências débeis: por que podem esses milagres também ser feitos através de artes mágicas? Pois os magos do faraó produziram também serpentes e coisas semelhantes (Ex 7.12). Mas é ainda mais digno de admiração como pode falhar o poder dos magos, que foi capaz de fazer aparecer as serpentes, mas não se manifestou, por exemplo, no aparecimento das pequeninas moscas. Tratava-se de minúsculos mosquitos que afligiram o soberbo povo egípcio na terceira praga (Ex 8.13).

Quando o magos falharam, disseram: O dedo de Deus está aqui (Ex 8.15). O que dá a entender que nem mesmo os anjos rebeldes e as potestades aéreas, lançadas fora das moradas da pureza eterna e sublime às profundezas tenebrosas, como para um cárcere “sui generis”, por cujo poder as artes mágicas fazem alguma coisa, nada podem realizar se não lhes for dado do alto o poder necessário.

Esse poder é outorgado às vezes para enganar os que querem enganar, como foi dado contra os egípcios e mesmo contra os próprios magos, para que, iludidos em seu espírito, parecessem ser objeto de admiração, quando na realidade foram vencidos pela verdade de Deus. Outras vezes, esse poder é concedido como admoestação aos fiéis, para, que não desejem fazer tais coisas como os exemplos a nós referidos pela autoridade das Escrituras; ou ainda, para que os justos tenham oportunidade de provar e manifestar sua paciência. Com efeito, foi pela enorme força de milagres visíveis que Jó perdeu tudo o que tinha, seus filhos e a própria saúde (Jó 1 e 2).

Fonte: “A Trindade” da Paulus Editora

domingo, 3 de junho de 2012

John Piper - Aqueles que têm fé são os filhos de Abraão


Março 20, 1983
JOHN PIPER

Assim Abraão "creu em Deus, e isso lhe foi imputado como justiça." Então, você vê que são os homens de fé que são os filhos de Abraão. E a Escritura prevendo que Deus justificaria os gentios pela fé, anunciou primeiro o evangelho a Abraão, dizendo: "Todas as nações serão benditas em ti". Então, aqueles que são homens de fé são abençoados com Abraão, que também possuia fé.

Gálatas 3:6-9
Você pode ser um filho de Abraão?

A Palavra de Deus a partir deste texto diz para nós que qualquer judeu ou gentio, rico ou pobre, homem ou mulher, branco, preto ou marrom, de raciocínio rápido ou lento, velho ou jovem, pode ser um filho de Abraão e herdar as bênçãos prometidas aos filhos de Abraão, se viverem pela fé.

A estrutura do texto é simples. O ponto principal é indicado de duas maneiras diferentes, uma vez no verso 7, e uma vez no versículo 9. E cada uma delas é precedida por seu apoio no Antigo Testamento. O versículo 6 cita Gênesis 15:6, "E creu ele no SENHOR, e foi-lhe {ou contou-lhe} imputado isto por justiça." E o versículo 7 estende este versículo, juntamente com o versículo 5, dando uma inferência geral: "Sabei pois que os que são da fé são filhos de Abraão". A única coisa que faz uma pessoa ser "filho de Abraão"é a fé. Em seguida, o versículo 8 cita Gênesis 12:3 (e 18:18), "e em ti serão benditas todas as famílias da terra." E o versículo 9 estende a inferência, "De sorte que os que são da fé são benditos com o crente Abraão." O que qualifica uma pessoa para herdar a bênção de Abraão é a fé. Assim, o principal ponto - a Palavra de Deus para nós hoje (expresso nos versos 7 e 9) é que qualquer um de nós que vive pela fé é um filho de Abraão, e herdará as bênçãos de Abraão.

Eu posso pensar em pelo menos duas razões por que as pessoas, simplesmente, não dariam importância a este aviso. Uma razão é que eles não têm idéia do que significa ser um filho de Abraão e nenhum senso do estupendo valor da bênção prometida aos filhos de Abraão. E o outro motivo é que eles não podem ver como um americano do século 20, que não tem uma célula judaica em seu corpo, pode ser chamado de filho de Abraão. Em outras palavras, se esta promessa em Gálatas 3:6-9 vai fortalecer a nossa fé e aumentar a nossa alegria, temos de mergulhar fundo e ver o que isso significa e como ela está fundamentada no Antigo Testamento. E esse é o meu objetivo: o progresso e a alegria da vossa fé (Filipenses 1:25), porque eu sei que a fé genuína trabalha-se em amor (Gálatas 5:6), e quando as pessoas vêem o amor sacrificial do povo de Deus, muitos são agarrados por isto e dão-Lhe glória (Mateus 5:16). Portanto, para o bem da nossa fé, do nosso amor, e, finalmente, da glória de Deus, vamos ver como Paulo entende os versos 7 e 9 fora do Antigo Testamento, e o que eles significam para nós hoje.

Não depende da descendência física

Um bom entendimento desta passagem depende daquilo que significa ser um filho de Abraão. Então, vamos tentar responder primeiramente esta pergunta. A primeira coisa que precisa ser dita é que Paulo acredita que filiação não depende de descendência física. Por exemplo, em 3:28, 29 diz ele,

Nisto não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus. E, se sois de Cristo, então sois descendência de Abraão, e herdeiros conforme a promessa

Então, a primeira coisa a ser dita é que judeus e não-judeus podem ser descendentes ou filhos de Abraão. Filiação não depende de descendência física. Romanos 9:6, 7, confirma isso:

Não que a palavra de Deus haja faltado, porque nem todos os que são de Israel são israelitas. Nem por serem descendência de Abraão são todos filhos.

Mas não é necessário ir além do nosso texto para ver isso. Não estão os versos 7 e 9 se referindo a um mesmo grupo de pessoas? O versículo 7 diz que "os da fé são filhos de Abraão." E o versículo 9 diz que "os que são da fé são benditos com o crente Abraão.", certamente, estas são as mesmas pessoas: Os filhos de Abraão, que irão, por conseguinte, desfrutar das bênçãos prometidas a Abraão e seus filhos. Mas, é evidente, a partir da conexão entre os versículos 8 e 9 que estas pessoas incluem gentios. O versículo 8 cita Gênesis 12:3, "e em ti serão benditas todas as famílias da terra (ou seja, os gentios)"- não apenas judeus. E do que Paulo infere do versículo 9: "que os que são da fé são benditos." Então, os crentes do versículo 9 deve incluir os gentios e, uma vez que, estes são os mesmos crentes no versículo 7, que são chamados filhos de Abraão, os filhos de Abraão devem incluir os gentios. Essa é a primeira coisa sobre ser um filho de Abraão: ela não depende da descendência física de Abraão.

Eu sei que soa estranho para nós, mas isto é de grande importância no Evangelho: brancos, protestantes anglo-saxões podem se tornar filhos de Abraão; hispânicos, laosianos e cambojanos podem se tornar filhos de Abraão; negros, africanos e muçulmanos podem se tornar filhos de Abraão, anti-semitas, pessoas sem instrução e nazistas podem se tornar filhos de Abraão; Hitler poderia ter se tornado um filho de Abraão.

Fonte: Trecho extraído de Piper, J. (2011). A holy ambition: To preach where christ has not been named. Minneapolis, MN: Desiring God.

Traduzido por Eric N. de Souza