domingo, 24 de fevereiro de 2013

Cornelius Van Til - Objeções levantadas


Assim, concordo, prontamente, que haja “dificuldades” quanto à crença em Deus e em sua revelação na natureza e na Escritura, às quais não posso resolver. De fato, há um mistério em cada relação feita com respeito aos fatos que estão diante de mim; e a razão disso é que todos os fatos têm explicação final em Deus, cujos pensamentos são mais altos que os meus pensamentos e cujos caminhos são mais altos que os meus caminhos.

É exatamente desse tipo de Deus que eu preciso. Sem esse Deus, sem o Deus da Bíblia, o Deus de autoridade, o Deus autocontido e, portanto, incompreensível aos homens, não haveria razão para mais nada. Nenhum ser humano pode explicar tudo, no sentido de ver através de todas as coisas, mas aquele que crê em Deus tem o direito de afirmar que existe uma explicação final.

Fonte: “Por que creio em Deus” da Editora Monergismo

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Dispensacionalismo, Teologia do Pacto e Teologia da Nova Aliança. (Qual a Posição de John Piper?)


Há três campos teológicos principais sobre as questões da lei, evangelho e a estruturação do relacionamento redentor de Deus com a humanidade: Dispensacionalismo, Teologia do Pacto e Teologia da Nova Aliança. Muitos têm nos escrito perguntando sobre as diferenças entre essas três visões, e assim, antes de discutir a perspectiva de John Piper, daremos uma visão geral de cada um desses campos.

Dispensacionalismo

Pode ser difícil sumarizar a teologia dispensacionalista como um todo, pois nos últimos anos têm se desenvolvido múltiplas formas da mesma. Em geral, há três distintivos principais. Primeiro, o dispensacionalismo vê Deus como estruturando seu relacionamento com a humanidade através de vários estágios de revelação, que delimitam diferentes dispensações, ou arranjos de administração. Cada dispensação é um "teste" da humanidade para ser fiel à revelação particular dada naquele tempo. Geralmente, sete dispensações são distinguidas: inocência (antes da queda), consciência (Adão a Noé), promessa (Abraão a Moisés), Lei (Moisés a Cristo), graça (Pentecoste ao arrebatamento), e o milênio. Segundo, o dispensacionalismo sustenta uma interpretação literal da Escritura. Isto não nega a existência de figuras de linguagem e linguagens não-literais na Bíblia, mas antes, significa que há um significado literal por detrás das passagens figuradas. 

Terceiro, como resultado desta interpretação literal da Escritura, o dispensacionalismo sustenta uma distinção entre Israel (até mesmo o Israel crente) e a igreja. Nesta visão, as promessas feitas a Israel no AT não foram pretendidas como profecias sobre o que Deus faria espiritualmente para a igreja, mas seria literalmente cumprida pelo próprio Israel (principalmente no milênio). Por exemplo, a promessa da terra é interpretada como significando que um dia Deus restaurará plenamente Israel à Palestina. Em contraste, os não-dispensacionalistas tipicamente vêem a promessa da terra como pretendida por Deus para profetizar, na forma obscura do antigo pacto, a grande realidade de que ele um dia faria da igreja inteira, judeus e gentios, herdeiros de todo o mundo renovado (cf. Romanos 4:13). 

Assim, em muitas formas é correto dizer que o dispensacionalismo crê em "dois povos de Deus". Embora tanto judeus como gentios sejam salvos por Cristo através da fé, o Israel crente será o recipiente das promessas "terrenas" adicionais (tais como prosperidade na terra específica da Palestina, a ser concretizada plenamente no milênio) que não se aplicam aos gentios crentes, cuja herança primária, dessa forma, é "celestial". 

Teologia do Pacto

A teologia do pacto crê que Deus tem estruturado seu relacionamento com a humanidade por pactos, ao invés de dispensações. Por exemplo, na Escritura lemos explicitamente de vários pactos funcionando como estágios na história redentora, tais como o pacto com Abraão, a entrega da lei, o pacto com Davi, e o novo pacto. Esses pactos pós-queda não são novos testes da fidelidade do homem a cada novo estágio de revelação (como são as dispensações no dispensacionalismo); antes, são administrações diferentes do único e abrangente pacto da graça. O pacto da graça é um dos dois pactos fundamentais na teologia do pacto. Ele estrutura o relacionamento pós-queda de Deus para com a humanidade; antes da queda, Deus estruturou seu relacionamento pelo pacto das obras. O pacto da graça é mais bem entendido na relação com o pacto das obras. 

O pacto das obras, instituído no Jardim do Éden, foi a promessa de que a obediência perfeita seria recompensada com a vida eterna. Adão foi criado sem pecado, mas com a capacidade para cair no pecado. Tivesse ele permanecido fiel na hora da tentação no Jardim do Éden (o "período probatório"), ele se tornaria incapaz de pecar e teria assegurado uma eterna e inquebrável posição correta diante de Deus. 

Mas Adão pecou e quebrou o pacto, e através disso, sujeitou a si mesmo e todos os seus descendentes à penalidade da quebra do pacto: a condenação. 


Portanto, Deus, em sua misericórdia, instituiu o "pacto da graça", que é a promessa de redenção e vida eterna àqueles que creriam no Redentor (vindouro). O requerimento da obediência perfeita para a vida eterna não é anulada no pacto da graça; pelo contrário, ele é cumprido por Cristo em favor do seu povo, visto que agora todos são pecadores, e ninguém pode satisfazer a condição de obediência perfeita por seu próprio desempenho. O pacto da graça, então, não coloca o pacto das obras de lado; antes, ele o cumpre! 

Como mencionado acima, a teologia do pacto enfatiza que há somente um pacto da graça, e que todos os vários pactos redentores sobre os quais lemos na Escritura são simplesmente administrações diferentes deste único pacto. Como prova, é apontado que um pacto é em essência simplesmente uma promessa dada soberanamente (frequentemente com estipulações), e visto que há somente uma promessa de salvação (a saber, pela graça através da fé), segue-se que há, portanto, somente um pacto da graça. Todos os pactos redentores específicos sobre os quais lemos (o Abraâmico, Mosaico, etc.) são várias e progressivas expressões do pacto da graça. 

Teologia da Nova Aliança [Pacto]

A teologia da nova aliança tipicamente não sustenta um pacto das obras ou um pacto da graça abrangente (embora eles ainda argumentem em favor de um único caminho de salvação). A diferença essencial entre a Teologia da Nova Aliança (daqui em diante TNA) e a Teologia do Pacto (TP), contudo, diz respeito à Lei Mosaica. A TP sustenta que a Lei Mosaica pode ser dividida em três grupos de lei – aquelas regulando o governo de Israel (leis civis), as leis cerimoniais e as leis morais. A lei cerimonial e a civil não mais estão em vigor, pois a primeira foi cumprida por Cristo e a última aplicava-se somente à teocracia de Israel, que agora não existe mais. Mas a lei moral continua. 

A TNA argumenta que ninguém pode dividir a lei dessa forma, como se parte da Lei Mosaica pudesse ter sido ab-rogada e o restante ainda permanece em vigor. A Lei Mosaica é uma unidade, dizem eles, e assim, se parte foi cancelada, tudo dela foi cancelado. Em adição, eles dizem que o Novo Testamento ensina claramente que a Lei Mosaica como um todo foi substituída em Cristo. Em outras palavras, ela não mais é nossa fonte direta e imediata de orientação. A Lei Mosaica, como uma lei, não mais é obrigatória para o crente. 

Isto significa que os crentes não são mais governados por alguma lei divina? Não, pois a Lei Mosaica foi substituída pela lei de Cristo. A TNA faz uma distinção entre a lei moral eterna de Deus e o código no qual Deus expressa essa lei para nós. A Lei Mosaica é uma expressão da lei moral eterna como um código particular que também contém regulamentações positivas pertinentes ao propósito temporal particular do código, e, portanto, o cancelamento da Lei Mosaica não significa que a lei moral eterna em si foi cancelada. Antes, no cancelamento da Lei Mosaica, Deus nos deu uma expressão diferente da sua lei moral eterna – a saber, a Lei de Cristo, consistindo nas instruções morais do ensino de Cristo e do Novo Testamento. A questão chave que a TNA procura levantar é: Para onde olhamos para ver a expressão da lei moral eterna de Deus hoje – para Moisés, ou para Cristo? A TNA diz que devemos olhar para Cristo. 

Há muitas similaridades entre a Lei de Cristo e a Lei Mosaica, mas isto não muda o fato de que a Lei Mosaica foi cancelada e que, portanto, não devemos olhar para ela a fim de conseguir orientação direta, mas antes para o Novo Testamento. Por exemplo, a Inglaterra e os Estados Unidos possuem leis similares (por exemplo, o assassinato é ilegal em ambos os paises). Todavia, os ingleses não estão sob as leis da América, mas da Inglaterra. Se um cidadão inglês assassina na Inglaterra, ele é culpado por quebrar uma lei da Inglaterra contra o assassinato, não uma lei Americana. 

O benefício da TNA, argumentam seus defensores, é que ela soluciona a dificuldade de tentar compreender quais das leis de Moisés se aplicam hoje. Sobre o entendimento deles, visto que a Lei Mosaica não é mais uma fonte de orientação direta e imediata, devemos olhar para a Lei de Cristo a fim de obter nossa orientação direta. Embora a Lei Mosaica não seja mais um código de lei obrigatório na era do NT, ela ainda tem a autoridade, não de lei, mas de testemunho profético. Como tal, preenche e explica certos conceitos tanto na lei do antigo como do novo pacto. 

A posição de John Piper

John Piper tem algumas coisas em comum com cada uma destas visões, mas não se classifica dentro de qualquer um desses três campos. Provavelmente ele está mais longe do dispensacionalismo, embora concorde com o mesmo de que haverá um milênio.

Muitos dos seus heróis teológicos eram teólogos do pacto (por exemplo, a maioria dos Puritanos), e ele vê certo mérito no conceito de um pacto das obras pré-queda, mas ele não tomou uma posição sobre o conceito especifico deles do pacto da graça. Com respeito às suas visões sobre a Lei Mosaica, ele parece estar mais próximo da teologia da Nova Aliança do que da Teologia do Pacto, embora uma vez mais isso não quer dizer que ele se enquadre precisamente dentro desta categoria. 

Do Livro: "Lei e Evangelho" (Coleção Debates Teológicos) Editora Vida.


quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

W. Gary Crampton - Escrituralismo: Uma cosmovisão cristã


Escrituralismo é uma visão do mundo e da vida. Cosmovisão é um conjunto de crenças sobre as várias questões da vida. Toda pessoa tem uma cosmovisão; é algo inescapável. A cosmovisão determinará como uma pessoa enxerga a totalidade da vida, as decisões que toma, por que age como age e assim por diante. Todas as cosmovisões apresentam pressuposições que governam seu sistema de crença; essas pressuposições funcionam como axiomas a partir dos quais todas as decisões são deduzidas. Escrituralismo é o sistema de crença em que a Palavra de Deus é fundacional na totalidade dos assuntos filosóficos e teológicos. Esse sistema de pensamento assevera que os cristãos jamais devem tentar combinar idéias seculares e cristãs. Antes, todo pensamento deve ser levado cativo à Palavra de Deus (2 Coríntios 10.5),  que é (parte de) a mente de Cristo (1 Coríntios 2. 16). Nossa mente deve ser transformada “para que experimente[mos] qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus” tal como encontrada nas Escrituras (Romanos 12.2), i.e., nossos pensamentos devem se tornar progressivamente os pensamentos de Deus (Isaías 55.6-9), pensamentos divinos esses que são apenas conhecidos através da Palavra de Deus. O escrituralismo, então, ensina que todo o nosso conhecimento deve ser derivado da Bíblia, que tem um monopólio sistemático sobre a verdade.

Fonte: Texto completo em Monergismo

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

R. C. Sproul - Podemos saber que somos salvos?


Precisamos perguntar a nós mesmos se vemos uma mudança real em nosso comportamento, alguma evidência exterior real da graça. Esse é um processo precário, porque podemos mentir a nós mesmos. É uma tarefa difícil de desempenhar, mas de modo nenhum impossível.

Temos mais um método vital de alcançar a certeza. A Escritura nos fala a respeito do testemunho interior do Espírito Santo. Paulo declara que “o próprio Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus” (Rm 8.16).

O principal meio pelo qual o Espírito testifica a nós é através de sua Palavra. Nunca tenho maior certeza do que quando estou meditando na Palavra de Deus. Se negligenciamos esse meio da graça, é difícil termos qualquer certeza duradoura ou forte de nossa salvação.

Um teólogo reformado, A. A. Hodge, dá a seguinte lista de distinções entre certeza verdadeira e falsa certeza.

CERTEZA VERDADEIRA
FALSA CERTEZA
Gera humildade não fingida
Gera orgulho espiritual
Leva à diligência na santidade
Leva à indulgência preguiçosa
Leva a um honesto auto-exame
Evita avaliação precisa
Leva ao desejo de comunhão mais íntima com Deus
É fria na comunhão com Deus

Fonte: “Eleitos de Deus” da Editora Cultura Cristã.