quarta-feira, 25 de junho de 2014

John W. Robbins - Não existe certo e errado naturais

... A distinção entre certo e errado depende inteiramente dos mandamentos de Deus. Não há nenhuma lei natural que torne as ações ou certas, ou erradas. Nas palavras do Breve Catecismo, pecado é qualquer falta de conformidade à, ou transgressão da, lei de Deus. Se não houvesse nenhuma lei divina, não haveria nenhum pecado ou virtude.

Isso pode ser visto de forma muito clara no mandamento para Adão não comer do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. Somente o mandamento de Deus é que fazia o ato de comer o fruto um pecado. Isso também pode ser visto no mandamento para Abraão sacrificar Isaque. Somente o mandamento de Deus é que tornava o sacrifício algo correto, e Abraão se apressou em obedecer. Por mais estranho que possa parecer aos ouvidos modernos, acostumados a ouvir tanto sobre o direito à vida, ou direito à moradia digna, ou direito à escolha, a Bíblia diz que não existe certo ou erado naturais. Somente os mandamentos de Deus é que tornam algumas coisas certas e outras, erradas.

Fonte: Parte do Prefácio de “Uma Introdução à Filosofia Cristã” de Gordon Clark, da Editora Monergismo

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Joel Parkinson - A Triunidade Intelectual de Deus

Clark continua para mostrar que as três Pessoas divinas são distintas devido aos seus pensamentos diferentes. “Visto que as três Pessoas também não têm precisamente a mesma série de pensamentos, elas não são uma Pessoa, mas três” (The Trinity, 106-107). Tal distinção pode parecer estranha superficialmente, visto que cada uma das Pessoas divinas conhece todas as verdades (1 João 3:20; Mateus 11:27; 1 Coríntios 2:11). Alguém poderia então ficar inclinado a concluir que as três Pessoas têm os mesmos pensamentos. Mas o Dr. Clark está se referindo ao que eu chamo de “conhecimento subjetivo” das Pessoas, enquanto a onisciência delas concerne ao “conhecimento objetivo”.

Agora, o “conhecimento subjetivo” consiste de fatos concernentes à experiência pessoal de uma pessoa, enquanto o “conhecimento objetivo” é a verdade com respeito à experiência. Dizer “eu estou escrevendo este artigo” é uma proposição subjetiva: somente eu posso dizê-la. Por outro lado, a declaração “Joel Parkinson escreveu este artigo” é objetiva, pois pode ser conhecida e dita por qualquer um.

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Assim, os pensamentos subjetivos das três Pessoas divinas e seu conhecimento objetivo não são uma e a mesma coisa, embora ambos sejam todo-abrangente. O Pai não pensa “eu morrerei ou morri numa cruz”, nem ele pensa “eu habitarei ou habito nos cristãos”. Somente o Filho pode pensar da primeira forma e a última é única ao Espírito Santo. Mas todos os três sabem que “o Filho morrerá ou morreu numa cruz” e “o Espírito Santo habitará ou habita nos cristãos”. Assim, os pensamentos subjetivos distinguem as Pessoas, embora o conhecimento objetivo delas seja compartilhado e completo.

Fonte: Monergismo

*Leia o texto completo em Monergismo

quinta-feira, 12 de junho de 2014

W. Gary Crampton - A Unidade da Pessoa de Cristo

[...]
Como temos visto, durante toda a história da igreja, sempre houve aqueles que têm negado a divindade de Cristo e aqueles que têm negado sua humanidade. É também o caso que sempre houve aqueles que têm negado a visão bíblica da união das duas naturezas em uma Pessoa. Antes do que meramente distinguir entre as duas naturezas de Cristo, o Nestorianismo [1] do quinto século dividiu Cristo em duas pessoas separadas. O Nestorianismo foi condenado no Concílio de Éfeso (431). Os eutiquianos do quinto século, por outro lado, afirmaram que após a encarnação havia somente uma natureza em Cristo. Essa natureza não era nem completamente humana, nem completamente divina. Antes, a união produziu uma mistura das duas naturezas numa terceira natureza misturada, uma tertium quid. Essa visão, que é também conhecida como monofisitismo (“uma natureza”), foi condenada no Concílio de Caldedônia (451 d.C.).

A visão bíblica da unidade da Pessoa de Cristo é ensinada na Confissão de Westminster (8:2), que declara de Cristo que “as duas naturezas, inteiras, perfeitas e distintas — a divindade e a humanidade — foram inseparavelmente unidas em uma só Pessoa , sem conversão, composição ou confusão; essa Pessoa é verdadeiro Deus e verdadeiro homem, porém, um só Cristo, o único Mediador entre Deus e o homem”.

Os teólogos chamam a união das naturezas divina e humana de Jesus Cristo numa única Pessoa de união hipostática. Na encarnação, como ensinado pela Confissão, o eterno Filho de Deus tomou sobre si uma verdadeira natureza humana. Desde então, Jesus Cristo é, e sempre será, uma Pessoa (isto é, um Deus-homem), com duas naturezas auto-conscientes: uma divina e uma humana.

Mas aqui é onde a dificuldade se levanta. A declaração do credo de Calcedônia, citado acima, juntamente com muito do “Cristianismo” popular, tem uma visão diferente. Essa visão mantém que a partir do tempo da encarnação, a Segunda Pessoa da Divindade é uma Pessoa divina com duas naturezas: uma divina e uma humana. Louis Berkhof, um advogado dessa visão, explica: “Há apenas uma Pessoa no Mediador, e essa Pessoa é o imutável Filho de Deus. Na encarnação ele não se transformou numa pessoa humana; ele simplesmente assumiu uma natureza humana, a qual não se desenvolveu numa personalidade humana, mas se tornou pessoal na Pessoa do Filho. A Pessoa única divina, que possuía uma natureza divina desde a eternidade, assumiu uma natureza humana e agora tem duas”. [2] Augustus Strong está de acordo com Berkhof. Ele conclui que a Pessoa única divina assumiu uma natureza humana impessoal. Em outras palavras, ele não se uniu com uma pessoa humana, mas com uma natureza humana “sem personalidade”.[3]

Nessa visão, a Pessoa única não é o Deus-homem, mas a Segunda Pessoa da Divindade. A dificuldade, então, é que se Jesus Cristo tem duas naturezas completas, uma plenamente divina e outra plenamente humana, e, todavia, ele é uma Pessoa divina indivisa, como essa Pessoa pode ser genuinamente humana?

Isto é, se Jesus Cristo é, como ensinado em Hebreus 2:17, e afirmado pela declaração do credo de Calcedônia, “em todas as coisas semelhante a nós”, como ele não é uma pessoa humana? Se ele, como Calcedônia apropriadamente afirma, tomou sobre si uma natureza humana de forma que, “segundo a humanidade”, ele é “em todas as coisas semelhante a nós”, então ele tinha um corpo humano e uma alma humana. Não é ele então uma pessoa humana? Afinal, a Bíblia repetidamente reivindica que ele não é apenas uma natureza humana; ele é “o homem Cristo Jesus” ( 1 Timóteo 2:5).

Além do mais, se a Pessoa auto-consciente do Deus-homem é a Segunda Pessoa da Trindade, como a maioria do “Cristianismo” popular afirma, então a natureza humana não seria auto-consciente. Todavia, em Lucas 2:52 lemos que Jesus crescia, não somente em “estatura” (isto é, fisicamente), mas também “em sabedoria” (mentalmente), mostrando assim que a natureza humana (pois a natureza divina, sendo onisciente, não pode crescer) de Jesus tinha uma consciência. Mas se o Deus-homem tinha duas consciências, então ele é duas pessoas: divina e humana. [4]

Essa foi a questão com a qual Nestório lutou. E, como Thomas Morris apontou, outros pensadores cristão primitivos, tais como Gregório de Nyssa (c. 330-395), Gregório de Nazianzo (329-389), e Cirilo de Alexandria (falecido em 444), também viram esse problema. Eles não foram tão longe como os Nestorianos ao ponto de reivindicar que Cristo tinha duas pessoas separadas. Mas eles sustentaram o que Morris chama de “a visão das duas mentes de Cristo”. [5] É irracional, assim diziam esses estudiosos, manter que o Deus-homem tinha somente uma auto-consciência divina. Se esse fosse o caso, ele não poderia ser plenamente homem.

A resposta para esse problema tem sido abismal. Tristemente, um modo típico de aliviar a dificuldade tem sido a abordagem kierkegardiana: coloque-a no mundo do paradoxo lógico. Outra solução é descartar o ensino bíblico de que Deus é impassional, e sugerir que a Segunda Pessoa da Divindade realmente sofreu sobre a cruz.

Essas, certamente, não são soluções reais de forma alguma. No último livro que ele escreveu, The Incarnation , [6] Gordon Clark tentou decifrar esse enigma. De acordo com o Dr. Clark, “o erro fatal” nessa questão é a ausência de definições. Como o credo de Calcedôcia, e como os outros, definem “pessoa”? Como “natureza” é definida? Aqui reside a dificuldade. [7] Aparentemente, quando os teólogos primitivos estavam formulando a doutrina da encarnação, os termos usados foram de certa forma ambíguos. Mas devemos nos guardar contra qualquer alegada solução que não forneça a humanidade plena de Jesus Cristo. E falar da humanidade de Cristo como uma natureza humana impessoal (se é que existe tal coisa), que se torna pessoal na encarnação, não resolve o problema. Além do mais, se a natureza se torna pessoal na Pessoa do Filho, então ela é uma pessoa humana.

O Dr. Clark faz algumas perguntas muito relevantes: “Se Jesus não era uma pessoa humana, quem ou o que sofreu na cruz? A Segunda Pessoa [da Trindade] não poderia ter sofrido, pois a divindade é impassional... Se então a Segunda Pessoa não podia sofrer, poderia uma natureza [humana impessoal] sofrer?”. [8]

O Dr. Clark continua: “Pelo contrário, somente... uma pessoa pode sofrer”. Além do mais, ele pondera, visto que a Bíblia nos ensina que Cristo possuía uma consciência humana, mente e coração, e vontade, como ele pode não ser uma pessoa?”. A salvação dos eleitos é realizada “pela alegada morte de uma natureza [humana] impessoal?”. Não, diz Clark, “aquele que morreu sobre a cruz foi um homem, ele tinha ou era uma alma, ele era um ser humano, uma Pessoa”. [9]

John Murray, um advogado da visão de Calcedônia, viu, todavia, as dificuldades com as “definições”. Ele escreve:
Talvez ao termo “Pessoa” possa ser dado uma conotação em nosso contexto moderno, e aplicado à natureza humana de Cristo, sem chocar através disso a unidade de sua Pessoa divina-humana. Em outras palavras, o termo “natureza” pode ser muito abstrato para expressar tudo o que pertence à sua humanidade e o termo “Pessoa” é necessário para expressar a humanidade que é verdadeira e apropriadamente sua. [10]
O presente escritor está de acordo com Clark e Murray sobre esse ponto. Parece melhor, se vamos reter a linguagem clássica sobre esse assunto (isto é, Pessoa e natureza), dizer com a Confissão de Westminster (8:2) que Jesus possui “ duas naturezas, inteiras, perfeitas e distintas — a divindade e a humanidade”, isto é, que ele é totalmente Deus e totalmente homem. E que na encarnação essas duas naturezas “foram inseparavelmente unidas em uma só Pessoa , sem conversão, composição ou confusão; essa Pessoa é verdadeiro Deus e verdadeiro homem, porém, um só Cristo, o único Mediador entre Deus e o homem”. Isto é, há um Senhor Jesus Cristo, um Deus-homem (isto é, a Pessoa única), que possui duas naturezas distintas e inseparáveis, ambas das quais devem ser consideradas “pessoais”, visto que ele é completamente divino e completamente humano. Não há nada impessoal sobre a natureza divina ou humana. De outra forma, Jesus Cristo não poderia ser completamente Deus, nem completamente homem. Quanto à sua humanidade, Cristo tinha uma mente ou alma humana, e um corpo humano. Ele é “o Homem Cristo Jesus” ( 1 Timóteo 2:5).

É importante apontar também que no tempo da encarnação, a natureza divina de Jesus Cristo, sendo imutável, não poderia e não passou por nenhuma mudança. Ele não colocou de lado nenhum dos atributos divinos quando ele tomou sobre si uma natureza humana. De fato, ele na poderia ter feito isso e ainda permanecer divino. Como Wayne Grudem afirma, “nenhum mestre reconhecido nos primeiros 1800 anos de história da igreja... [creu] que o Filho de Deus [na encarnação] abandonou alguns dos seus atributos divinos”.[11]
[...]

NOTAS:
[1] Nestorianism is named for the founder of this movement, Nestorius, although it is disputed as to whether or not Nestorius fully endorsed the view espoused by his followers.
[2] Louis Berkhof, Manual of Christian Doctrine (Grand Rapids: Eerdmans, 1987), 184.
[3] Augustus H. Strong, Systematic Theology , three volumes in one (Valley Forge: Judson Press, 1907, 1985), II:692-693.
[4] Nota do Publicador: Desafortunadamente, essa é uma das mais difíceis, todavia mais sublime, de todas as doutrinas da religião cristã. Embora a Blue Banner especificamente nega uma explicação Nestoriana da Personalidade de Cristo, deve também ser admitido que muita da explicação moderna do Credo de Calcedônia é também deficiente. Verificamos que muita da explicação moderna do termo “natureza humana” é ambíguo, na melhor das hipóteses. Como o Breve Catecismo (Q 22) claramente ensina, Cristo tinha um corpo verdadeiro e uma alma racional. Outra forma de dizer isso é que Cristo tinha tudo que está envolvido num ser humano.
[5] - Thomas V. Morris, The Logic of God Incarnate (London: Cornell University Press, 1986), 102-103.
[6] - Gordon H. Clark, The Incarnation (Trinity Foundation, 1988).
[7] - Clark , The Incarnation , 15-17.
[8] - Clark , The Incarnation, 67.
[9] - Clark , The Incarnation , 67-70.
[10] - John Murray, Collected Writings of John Murray (Edinburgh: Banner of Truth Trust, 1977), II:138.
[11] - Wayne Grudem, Systematic Theology: An Introduction to Biblical Doctrine (Leicester, England: InterVarsity Press; Grand Rapids: Zondervan, 1994), 550.

Fonte: “Cristo, o Mediador, de W. Gary Crampton, Th.D. Estou traduzindo, mediante autorização do autor, esse excelente livro; portanto, por favor, consulte em breve a seção Livros para ler o mesmo na íntegra.



Traduzido por: Felipe Sabino de Araújo Neto
Cuiabá-MT, 09 de Outubro de 2005.

Fonte: Monergismo

terça-feira, 10 de junho de 2014

Marcos Granconato - Os Decretos de Deus

Criação, história e governo humano
Decretos de Deus são seus planos e desígnios preestabelecidos, perfeitos e imutáveis, por meio dos quais ele dirige soberanamente a história e realiza sua vontade soberana em todo o universo, atingindo, assim, seus propósitos santos.
Os decretos de Deus são impossíveis de ser frustrados (Jó 23.13,14; 42.2; Is 43.13; 46.10), sobrepõem-se aos propósitos humanos (Dn 4.35; Pv 19.21; Fp 2.13) e, sendo perfeitos, não sofrem alterações (1Sm 15.29; Sl 33.11; Is 46.10; Hb 6.17).
Aliás, deve-se lembrar que a oração do crente não tem força para alterar os planos de Deus. Textos que dão essa impressão (Ex 32.9-14) devem ser entendidos no sentido de que a aparente mudança no desejo do Senhor já estava fixada em seus planos preestabelecidos, sendo a própria oração parte integrante desses planos. 
É por isso que, mesmo sabendo que Deus já tem tudo planejado, o crente deve orar. Passagens bíblicas como 2Samuel 7.27-29Daniel 9.2,3 e Apocalipse 22.20 mostram pessoas orando mesmo depois de Deus ter revelado o que já tinha planejado fazer.
Bíblia ensina que os decretos de Deus envolvem a criação, estando ela sujeita aos seus planos e cumprindo o que ele determina (Sl 148.1-10). Foi, inclusive, por seu decreto soberano que a natureza foi submetida à vaidade até o dia da libertação dos crentes (Rm 8.20,21). De fato, nada acontece em toda a criação sem a autorização suprema de Deus (Mt 10.29).
Os decretos de Deus também abrangem a história. O Senhor determinou os tempos de ascensão e queda de todos os povos e também as regiões específicas que deveriam ocupar (At 17.26). Ele decretou os atos cruéis da Assíria (Is 10.5,6) e a queda desse império por não reconhecer que era só um instrumento nas mãos de Deus (Is 10.12-15). Ele decretou a destruição das nações por meio dos babilônios (Sf 3.8) e planejou a restauração de Jerusalém por meio de Ciro (Is 44.24-28; 46.11).
As ações de Herodes, de Pôncio Pilatos, dos gentios e do povo de Israel no trato com Jesus foram predeterminadas por Deus (At 4.27,28). O Senhor também decretou que a história termine com a sujeição completa de todo o universo a Cristo (Ef 1.9,10). Na verdade, as profecias do Antigo Testamento e os ensinos do Novo Testamento acerca do futuro nada mais são do que revelações dos decretos de Deus referentes à história universal.  
Ainda que os diversos países sejam governados por homens e sistemas legais injustos, é preciso reconhecer que os decretos de Deus abrangem também o governo humano, não havendo nenhuma autoridade política que não tenha sido estabelecida por ele (Rm 13.1). Foi Deus quem deu autoridade e poder a Faraó (Rm 9.17), a Ciro (Is 41.2-4; 45.1-7) e a Pilatos (Jo 19.10,11), tudo com o objetivo de, por meio deles, cumprir os seus decretos. Desse modo, ele, o Senhor, tem pleno domínio sobre o reino dos homens e o dá a quem ele quer (Dn 4.17,25,32; 5.21), movendo o coração dos governantes de acordo com seus propósitos às vezes misteriosos mas sempre justos (Êx 9.12; 10.20,27; 11.10; 14.8; Ed 7.21-28; Pv 21.1).
A vida dos indivíduos e a salvação
Os planos de Deus se realizam também na vida de cada indivíduo, sendo ele quem decide formar pessoas fisicamente perfeitas (Sl 139.13,14) e pessoas mudas, surdas e cegas (Ex 4.11).
O Senhor também decretou os limites da vida de cada um, fixando o número certo de seus dias (Jó 14.5; Mt 6.27) e todos os detalhes da história de todos os seres humanos (Sl 138.8; 139.16), incluindo suas funções (Jr 1.5), suas capacitações (Dn 2.21), suas experiências (At 22.14,15) e a forma como hão de morrer (Jo 21.18,19; At 1.15-20).
Deus age livremente e como bem entende na vida de todo e qualquer indivíduo, sempre com o objetivo de realizar seus objetivos (Dn 4.35). Ele fez com que Sansão se interessasse por uma moça filisteia a fim de cumprir seus planos contra os inimigos de Israel (Jz 14.1-4). Ele impediu que os filhos de Eli ouvissem os conselhos do pai porque queria matá-los (1Sm 2.25). Ele também decretou a traição de Judas revelando-a de antemão na Escritura e usando o falso discípulo para cumprir as profecias sobre a rejeição e morte do Messias (Mt 26.24; Jo 17.12; At 1.15-20).
Os decretos de Deus abrangem ainda a história, o meio e os alvos da salvação. Na eternidade, ele planejou que seu Filho fosse morto como sacrifício pelo pecado (At 2.23; 1Pe 1.18-20) e que a oferta de salvação em Cristo fosse feita a todas as nações (Lc 24.44-48).
Ele também decretou quem seria salvo e quem seria destinado para a ira (Pv 16.4; Rm 9.15-18,21-24). Essa decisão foi tomada antes dos tempos eternos (Ef 1.4,5) com base em sua própria determinação e graça e não com base em méritos pessoais (Ef 1.11; 2Tm 1.9).
Ao homem não cabe questionar o decreto salvífico de Deus, uma vez que ele tem o direito de ser gracioso com quem quiser e de endurecer o coração de quem quiser (Is 63.17; Rm 9.18-21), sendo sempre justo em todas as suas decisões (Rm 9.14).
No cumprimento de seus santos desígnios, o Senhor também decretou que uniria judeus e gentios num só corpo, a Igreja (Ef 3.3-11), e que só um remanescente de Israel seria salvo antes da vinda do Senhor (Rm 9.27; 11.25,26).
Ressalvas importantes
Obviamente, a doutrina dos decretos de Deus faz surgir intrigantes questões, algumas delas impossíveis de ser respondidas de maneira satisfatória, dado o silêncio das Escrituras no tocante à forma como se deve harmonizar a soberania divina e a responsabilidade humana. Prevendo o levantamento dessas questões e eventuais respostas erradas dadas a elas, seguem abaixo três proposições que devem servir como ressalvas, a saber:
1. Os decretos de Deus não tornam os homens inocentes pelos males que praticam. Os caldeus foram considerados culpados por sua maldade contra Judá (Hc 1.11), mesmo sendo o próprio Deus quem os levantou para realizar esses atos (Hc 1.6). Da mesma forma, Herodes e Pôncio Pilatos pecaram quando conspiraram contra Jesus, apesar de ter sido Deus quem decretou que agissem assim (At 4.27,28). O que se depreende disso é que o decreto de Deus não anula o pecado dos perversos, nem torna Deus culpado por suas más ações. Note-se que Jesus reprovou Judas mesmo sabendo que ele, com sua traição, cumpriu o decreto divino (Mt 26.24). Pedro, por sua vez, criticou os judeus de Jerusalém por matarem Jesus, mesmo sabendo que isso tinha sido preestabelecido por Deus (At 2.23).
A maneira como Deus decreta o mal sem se tornar culpado e sem remover a culpa dos perversos não é revelada na Escritura, estando além da compreensão humana. Trata-se de um dos muitos mistérios que permanecem escondidos na mente insondável do Senhor (Dt 29.29) e que deve estimular a humildade, a fé e a adoração, e nunca a rebelião ou o inconformismo (Rm 11.33-36).
2. Os decretos de Deus não podem ser alterados pelas orações dos homens: textos que dão a impressão de que Deus mudou de plano por causa da intercessão de alguém (Ex.: Ex 32.9-14) devem ser entendidos no sentido de que a aparente mudança no desejo do Senhor já estava fixada em seus planos preestabelecidos, sendo a própria oração parte integrante desses planos. É por isso que, mesmo sabendo que Deus já tem tudo planejado, o crente deve orar. Passagens bíblicas como 2Samuel 7.27-29Daniel 9.2,3 e Apocalipse 22.20 mostram pessoas orando mesmo depois de Deus ter revelado o que já tinha planejado fazer.
3. Os decretos de Deus relativos à salvação não devem desencorajar o evangelismo: Deus não somente decretou quem seria salvo, mas também determinou que os seus eleitos fossem alcançados por meio da pregação (1Co 1.21). Assim, uma vez que o crente não sabe quem é eleito, é seu dever pregar a todos. Ademais, é preciso destacar que o decreto eletivo de Deus é, na verdade, um estímulo ao evangelismo, uma vez que fornece a garantia do seu sucesso. De fato, uma vez que é certo que os escolhidos atenderão ao convite do evangelho (Jo 10.16; At 13.48), os crentes devem se sentir encorajados a proclamar com empenho as Boas Novas. Note-se que, em Atos 18.9,10, foi a certeza de que havia eleitos de Deus em Corinto que motivou Paulo a perseverar no trabalho de evangelização daquela terrível cidade.

Fonte: extraído da Igreja Batista Redenção