quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Ronald Hanko - Soberania de Deus e responsabilidade humana

Alguns pensam que há um conflito entre a soberania de Deus e a responsabilidade humana. Se Deus controla e dirige todas as coisas, se ele eternamente decretou todas as coisas, incluindo o pecado e leva todas as coisas a acontecer, então o homem não pode ser responsável por aquilo que ele faz. Ele pode dizer: "Deus fez isso. Ele decretou. Não poderia ser de outra forma. Eu não sou culpado."

Nós acreditamos na soberania absoluta de Deus, ainda acredito que, ao mesmo tempo, o homem é responsável por suas ações, seus pensamentos e seus motivos. Na verdade, todas as objeções que os homens levantam contra a soberania de Deus realmente são inúteis, pois a Escritura testifica que Deus é soberano e que há de julgar os homens por sua maldade e não ouvirá as suas queixas. Ele contará até mesmo suas queixas como pecado (Rm 9:20).

Pode ser verdade, nas relações humanas, que uma pessoa que faz com que algo aconteça é, portanto, responsável. Ela pode fazer algo através da ação dos outros e ainda arcar com a responsabilidade primária. Posso não ter realmente puxado o gatilho, mas ser responsável, no entanto, por um assassinato porque eu planejei e elaborei.

Não é assim com Deus. Embora possamos não ser capazes de explicar a relação exata entre a soberania de Deus e a responsabilidade do homem, mesmo assim Deus é soberano e o homem é responsável. Deus é tão grande que só ele é capaz de decretar e controlar todas as coisas sem ser responsável pelas más ações de homens e demônios.

Um dos melhores exemplos disso é encontrado em 2 Samuel 24:1 e 1 Crônicas 21:1. A segunda passagem atribui o pecado de Davi de numerar o povo à Satanás. Satanás moveu Davi a numerar o povo. No entanto, como 2 Samuel 24:1 mostra, Deus também estava por trás desse pecado. Ele moveu David a cometê-lo. Este é um lembrete de que Deus não apenas permite o pecado, mas soberanamente faz com que aconteça, e que Deus usa e controla até mesmo Satanás para isto. No entanto, quando confrontado com o pecado, Davi não diz: "Deus me fez fazer isso", ou "O diabo me fez fazer isso", mas ele assume a responsabilidade total e diz: "eu pequei" (2 Sm 24:17; 1 Crônicas 21:17).

O exemplo supremo é a crucificação de Cristo. Atos 2:23 nos diz que Cristo foi entregue à morte pelo determinado conselho e presciência de Deus. O decreto e a presciência de Deus sobre todas as coisas levou Cristo para a cruz. Atos 4:26-28 nos diz que aqueles que crucificaram Cristo fizeram apenas o que Deus em seu decreto tinha predeterminado para ser feito. Esses que crucificaram Cristo foram, então, responsáveis? Eles poderiam dizer que não tinham culpa no assunto? Eles não podiam. Atos 2:23 nos diz que suas mãos ainda eram mãos de iníquos, e que foram eles que crucificaram e assassinaram Cristo. A soberania de Deus não destruiu a sua responsabilidade.

Você assumi a responsabilidade pelos seus pecados? Se vai ou não fazer agora, você fará no dia do julgamento. A soberania de Deus não desculpará você. Só Cristo pode salvá-lo da ira de Deus.

Fonte: “Doctrine according to godliness” de Reformed Free Publishing Association
Tradução: Eric N. de Souza

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Kyle Baker - Deus controla o mal


O endurecimento ativo do coração por parte de Deus pode ser visto em escala maior que as batalhas de Israel. Ele pode ser percebido diariamente em toda a história. Existem homens ímpios e incrédulos que nunca acreditarão no Senhor Jesus Cristo porque Deus não lhes permitirá fazê-lo – de fato, Deus faz com que eles não creiam. Deus não só “permite” a incredulidade desses homens, mas ele os controla de modo direto para que sejam mantidos sob juízo até o Senhor vir pela segunda vez em glória. Pedro diz que Deus “reserva aos injustos sob castigo para o dia do juízo” (2Pe 2.9). “Reserva” é o presente infinitivo ativo de tēreō, o qual demonstra que Deus está presente e mantém continuamente os réprobos em um estado que trará a punição no dia do juízo.

Pois que? O que Israel busca, isso não tem conseguido, mas a eleição o conseguiu; e os mais foram endurecidos, como está escrito: Deu-lhes Deus um espírito de torpor, olhos para não verem e ouvidos para não ouvirem até o dia de hoje (Rm 11.7,8).

Fonte: Para ver o texto integral, acesse Monergismo

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Jorge Fernandes Isah - Preso na própria armadilha


Estou a ler “Confissões” de Agostinho de Hipona [1], e, vez ou outra, me deparo com algumas afirmações contraditórias do autor. Com isso não quero desqualificar a obra, nem sou louco para tanto. O livro é mais do que bom, é ótimo! Porém contaminado pela idéia extrabíblica do livre-arbítrio; ou a tentativa de defender Deus dos ataques inimigos, daqueles que querem desacreditá-lo por causa da existência do mal; ou ainda pelos que insistem em manter seus “esquemas” conceituais e doutrinários a todo custo; ele diz: "Pois eu não sabia que o mal é apenas privação do bem, privação esta que chega ao nada absoluto"[2].

Esta última afirmação não me convenceu. O mal não pode ser o nada absoluto, nem o nada absoluto resultar num mal absoluto. O "nada" nada pode criar, nem dele resultar efeito algum, sendo causa de qualquer coisa, mesmo que um “nada” maior ou menor do que nada. Ele é o que é: nada; e mais nada. 

Da mesma forma, dizer que o mal é a privação do bem, implica em que ele, assim como o bem, pode ser autocriado e existir fortuitamente. Acontece que se o bem é proveniente de Deus, o mal é proveniente do quê? Da ausência de Deus? Mas estaria Deus ausente de algum lugar? Poderia haver algum espaço onde Ele não esteja presente? Onde o Seu conhecimento não alcance? Haveria algo possível de existir contrário à mente divina? Uma espécie de "energia" ou "força" que subsista alheia a Ele? Pode haver algum recôndito na criação onde Deus deixou-o à própria sorte, abandonando a pessoalidade com que não somente criou mas sustenta todas as coisas, para a impessoalidade de negligenciá-la ou omitir-se [deísmo]? É possível haver algo que se sustente por vontade própria? 

A Bíblia afirma que tudo, absolutamente tudo, é sustentado pelo poder da palavra, a qual é Cristo. Por Ele tudo foi criado, existe e subsiste [Cl 1.15-17; Hb 11.3]. Portanto, parece-me ilógica essa assertiva, a menos que ela tenha um cunho simbólico, figurado, seja uma metáfora; mas para que isso acontecesse, não se poderia usar os termos “mal” e “bem”como Agostinho os usa. Os termos utilizados são os que conhecemos como definidos semanticamente. 

Os ímpios foram criados para o mal, a fim de exercê-lo e praticá-lo, e por isso, e por desempenhá-lo com especial veneração, serão irremediavelmente condenados [Pv 16.4]. Se foram criados com esse propósito, o mal, que eles praticam, também. Logo Deus criou-os objetiva e determinadamente, cumprindo os Seus santos e perfeitos desígnios.

Dizer que o mal é a ausência absoluta do bem, e de que isso seja o nada absoluto, representa dizer que ele não existe, nem é praticado, nem produz os efeitos pelos quais o Senhor o criou. Seria apenas uma ilusão, o produto da mente, como algumas religiões garantem? Ou, de alguma forma, Deus foi impedido ou incapaz de manter o bem na esfera em que o mal atua? O que levaria à perigosa e maligna idéia de que Deus pode ter sido pego de surpresa, ou não ser o Todo-Poderoso como a Escritura assevera. Em muitos aspectos, vejo sérios problemas à manutenção da doutrina da soberania, onisciência, onipotência, perfeição e santidade divinas quando o mal parece ser colocado em uma categoria “extra” Deus. Por mais que os argumentos sejam bem construídos, agradáveis, e revestidos de certa nobreza metafísica, ainda assim, se não estiverem em harmonia com o texto bíblico, são reprováveis.

Agostinho, em sua doxologia e amor a Deus [há de se entender que o nosso amor ainda é imperfeito, e somente será perfeito no glorioso dia do Senhor], costura uma doutrina que fica aquém da Escritura, com o nítido objetivo de salvaguardar Deus da criação do mal e, para isso, utilizou-se de um raciocínio falacioso. Entenda, não estou a anular nem inabilitar a sua obra. Reconheço-o como instrumento divino na construção dos fundamentos teológicos cristãos, em sua sistematização, na proclamação do Evangelho e defesa da fé. Por ele, Deus operou na Igreja revelando verdades que estavam enevoadas ou esquecidas; porém, em relação ao mal, a despeito da inspiração e sublimidade dos versos, não passa de incompreensão e interpretação deturpada da Bíblia.

Quer dizer que estou a rejeitar a sua obra? Longe disso. Ao contrário. Quero apenas garantir que em meio a todos os seus acertos, o erro não seja confundido com eles; não seja de alguma forma diluído na verdade, passando-se por ela.

À medida que a leitura avança, percebemos que a vida de Agostinho está tão intrinsecamente ligada a Deus que não é possível discorrer sobre qualquer ponto sem reportá-la ao senhorio divino.

Por exemplo, quanto à natureza caída do homem, que se inclina, almeja, deseja e se deleita na prática do mal, do pecado; em relação à depravação do homem e sua responsabilidade perante Deus, concordo em gênero e número com o que diz, estando plenamente em conformidade com a revelação especial.

Para falar do Senhor como o Ser infinito e eterno, ele diz; “'Tu, porém, és o mesmo eternamente', e todas as coisas de amanhã e do futuro, de ontem e do passado, hoje as farás, hoje as fizeste!"[3], ecoando o ensino do Salmo 102.27 e Hebreus 1.12.

Ou ainda: "Alguém pode ser autor de sua própria criação?"[4]; ao referir-se à criatura, mostrando a impossibilidade de qualquer coisa existir aparte de Deus, o qual sendo não-criado é o único autor de tudo o que foi criado.

São fragmentos que espelham posições bíblicas, e das quais nenhum ortodoxo rejeitará.

Mas, voltando à questão do bem e do mal, parece-me que a idéia agostiniana  se resume à presença e ausência de Deus, da ação de Deus e da ação do "não-Deus" para que o bem e o mal existam, respectivamente. Contudo, ele mesmo afirma que não há universo possível para contê-lo [Deus], mostrando a sua infinitude. Então, como o mal surgiu a partir da não-presença do Deus infinito na criação finita?

Ao distinguir entre tudo e o pecado, como este não estando incluído na categoria "tudo" [o que considero um grave erro doutrinário e lógico], Agostinho mostra-se contraditório ao dizer: "Senhor, meu Deus, ordenador e criador de tudo o que existe na natureza, com exceção do pecado, de que és apenas regularizador"[5].

Ao assumir que Deus não criou o pecado [e por conseguinte o mal], sendo apenas seu regulador, coordenador, estaria agindo sobre quais leis? As Suas ou de outrem? E como ficaria a citação de que Deus criou "tudo o que existe na natureza", mas o "tudo" pode significar alguma coisa rotulada de "não-tudo", mesmo que seja o pecado? Implicando, na verdade, que Deus não é o único Criador perfeito e santo, havendo a possibilidade de outro agente criativo? Estaríamos diante da idéia de um "não-Deus" em alguma parte da criação?

De várias formas, Agostinho tenta, inexplicavelmente, não-explicar o explicável, como um caçador preso em sua própria armadilha.

Nota: 1-"Confissões", de Santo Agostinho - Editora Paulus
2-Idem - pg 75
3-   "    - pg 26-27
4-   "    - pg 26
5-   "    - pg 32

Fonte: Kálamos

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

R N Champlin - "Jesus, lembra-te de mim ..."

Ele não desejou instantânea libertação da cruz, onde, pelo contrário, estava convencido de que deveria morrer; mas desejou, única e exclusivamente, que nosso Senhor, em sua graça, se lembrasse dele, recebendo-o em seu reino. Sem dúvida não estava inteiramente isento de expectações messiânicas terrenas, e não estava pensando tanto no céu para onde iria nosso Senhor, após a sua morte; mas colocou-se pessoalmente no momento em que o Messias viesse, em sua glória real, a fim de estabelecer o seu reino sobre a face da terra, desejando que, então, despertado de seu sepulcro, pudesse entrar com Cristo na alegria de seu Senhor. Comparar com Mat. 16:28 (Lange, in loc.).
Ainda que somente disso tivesse consistido a oração do ladrão penitente, continuaria sendo uma das mais ousadas orações que já foram feitas, porquanto ousou crer na vitória final de um Rei, que naquele exato momento não demonstrava outra coisa além de seu poder de morrer. A única maneira de podermos entender tal declaração de fé é mediante o estudo da psicologia da conversão. A sua confiança não tinha qualquer base na experiência ou na observação, pois o que poderia ser mais negro do que o quadro que ele tanto viu como experimentou naqueles momentos? A alma convertida, entretanto, não precisa de amparos para ser encorajada a confiar. Só podemos crer, por conseguinte, que houve uma operação especial da graça no seu coração, e que ele falou alicerçado naquela fé que enxerga longe, antevendo um dia mais claro, que será avistado para sempre.
«Existe algo - de singularmente - tocante na confiança subentendida na forma desse apelo. Ele não pediu qualquer vantagem especial, nenhum lugar à mão direita ou à mão esquerda: nenhum lugar no palácio do rei. Contentava-se em não ser esquecido, certo de que, se o rei viesse a lembrar-se dele, de alguma maneira, fá-lo-ia com pensamentos de ternura e de compaixão». (Ellicott, in loc.).
O ladrão penitente não demonstrou qualquer coisa notável em seu conceito do reino, ao qual solicitava admissão. O que nos admira é a energia e o poder da sua confiança, que ele expressou a um rei moribundo, envolto em opróbrio, dor e zombaria, tendo exercido uma fé que não é lançada em eclipse por qualquer dos heróis da fé, mencionados no décimo primeiro capítulo da epístola aos Hebreus.

Fonte: “O Novo Testamento interpretado – versículo por versículo” da Editora Candeia